tanto passado

spiral

1
a gente é tanto o passado
história recontada de nós

a chuva que lá nos molhou
as mesas que partilhamos

as cartas que escrevemos
quem não mais retornou

2
o tempo sempre tão agora
em dobras que trago de ti

nas valsas que escutamos
o corte que não cicatrizou

todas as noites do mundo
sede fome saudade e café

3
ninguém vai embora de si
não há senão reencontros

o livro que você tanto leu
e os textos que jorram daí

longo arco pra tuas viagens
a portos nunca longe daqui

samba pra me despedir

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não quero perder o bonde
que vai me levar de ti
na mesa deixei o fel e o batom
e já me vou a sorrir

das tralhas vai quase nada
só os Tons que mostrei a ti
não quero que ouças sobre o amor
que não soubeste sentir

quero o vestido mais bonito da avenida
e esparramar meu coração
sei que é preciso uma dor de despedida
pra restaurar a ilusão

o carro já vem na esquina
não cabe nem mais senão
deixei sobre o armário a conta de luz
ao lado da solidão

te peço que regue as flores
não tome um não como o fim
se a sorte tocar teu peito, meu bem
verás ainda um jardim

quero o vestido mais bonito da avenida
e esparramar meu coração
sei que é preciso uma dor de despedida
pra restaurar a ilusão

caronte.br/manifesto

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feras em sulcar a terra
somos bons em túneis.
ases em fazer voragem
cavamos como a nadie.

fossos em poucos dias
poços de longa queda
fendas, cavas ou furos
descemos like nobody

é tão linda a parede de
terra que jaz sobre nós
sombra e frio nos ocos
dos sítios de lama e pó

special prices: toll-free!

neste perau dos povos
vendemos trincheiras
e coutos a quem teme
a treva do mais-de-um

e viramos paz em pás
para te dar a graça de
um abismo privado só
very important person

para que gastar em asas
se te entregamos covas?
fast track para chegares
ao lado avesso da cidade

watch out & vote for us!
make Brazil great again

[o tribunal eleitoral avisa]
[contém 9 doses de ironia]

amor jobim

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há papéis sobre a mesa
que eu mesmo escrevi:
tantos planos de curso
gente que desenhei
as perguntas pra tudo
País que atravessei
numa viva matriz…

pincéis

sublinhei em laranja
a palavra amor:
nas letras de itamar
livros de mia e rosa
nas meninas do Vale
que eu mesmo escutei
telas de beira-mar…

azuis

há quarenta e seis dias
faço a casa em sol
linhas tênues borram
sonhos que desenhei
e me faço mais cinza
me começo outra vez
é preciso remar

te chamei

para provar as noites
ser menino ao tempo
vamos brincar lá fora
mergulhar no sereno
e viver só de tons

amor jobim

é dormir nos teus braços
para perder as festas
é quando queres muito
e é quando não pensas
quando vai quando quanda

a saturno

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eu me deixei partir
quando te encontrei
fui a Saturno em transe
por uma hora a mais

o sol se põe em ti
todos os dias são
agoras universos
sede no meu olhar

se quero esquecer
onde o espaço abriu
faço-me Virgem casto
para escapar de ti

mas os anéis são meus
mora um Clown aqui
eu me reviro inteiro
pra retornar a ti

e me deixar partir
quando te encontrar
ir a Saturno em transe
por uma hora a mais

samba da intenção

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ando inteiro
só quando posso
já não é muito
onde faz nó
meu coração

não leve a mal
eu sempre venho
não há cansaço
que me tire
a direção

se acaso é dona
do tempo – lhe confesso
que nada posso
eu não passo
de ilusão
 
mas se a prosa
é por história
você já sabe
tens de mim
só devoção

leva meus lábios
aos pedaços
faz raízes
onde eu sou
só intenção

sou passageiro
não quero nada
e vou calado
qual as cinzas
de um vulcão

se acaso é dona
do tempo – lhe confesso
nada posso
eu não passo
de ilusão
 
mas se a prosa
é por história
você já sabe
tens de mim
só devoção

Calcutá

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lua em vermelho e
os dias em Calcutá
de esquinas e nãos

volto a beber areia
torna a teia em tez
o nada não tem fim

o tempo come tudo
água se faz em sais
o verde em ilusões

faíscas à beira mar
de fronteiras azuis
e pás de reversões

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar

de Djavan bebi o a
de Caetano o seu cê
Julinho nem cantou

vai roto um manual
caducas as sessões
e o tempo explodiu

vento veio por fins
longe se pois perto
e o cais se encostou

o medo é que o amor
tão e tanto ancorado
queira partir de mim

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar