a saturno

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eu me deixei partir
quando te encontrei
fui a Saturno em transe
por uma hora a mais

o sol se põe em ti
todos os dias são
agoras universos
sede no meu olhar

se quero esquecer
onde o espaço abriu
faço-me Virgem casto
para escapar de ti

mas os anéis são meus
mora um Clown aqui
eu me reviro inteiro
pra retornar a ti

e me deixar partir
quando te encontrar
ir a Saturno em transe
por uma hora a mais

samba da intenção

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ando inteiro
só quando posso
já não é muito
onde faz nó
meu coração

não leve a mal
eu sempre venho
não há cansaço
que me tire
a direção

se acaso é dona
do tempo – lhe confesso
que nada posso
eu não passo
de ilusão
 
mas se a prosa
é por história
você já sabe
tens de mim
só devoção

leva meus lábios
aos pedaços
faz raízes
onde eu sou
só intenção

sou passageiro
não quero nada
e vou calado
qual as cinzas
de um vulcão

se acaso é dona
do tempo – lhe confesso
nada posso
eu não passo
de ilusão
 
mas se a prosa
é por história
você já sabe
tens de mim
só devoção

Calcutá

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lua em vermelho e
os dias em Calcutá
de esquinas e nãos

volto a beber areia
torna a teia em tez
o nada não tem fim

o tempo come tudo
água se faz em sais
o verde em ilusões

faíscas à beira mar
de fronteiras azuis
e pás de reversões

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar

de Djavan bebi o a
de Caetano o seu cê
Julinho nem cantou

vai roto um manual
caducas as sessões
e o tempo explodiu

vento veio por fins
longe se pois perto
e o cais se encostou

o medo é que o amor
tão e tanto ancorado
queira partir de mim

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar

longe, outro e capa

princesa
usei demais as luvas
que ganhei de ti

e já esqueci
minhas mãos

onde é pano
onde sou
onde és

fiz-me um nó
cola de ti
sombra, talvez

talvez

talvez eu
nem saiba quão
rígido e frio
meu aceno
se fez

deixei de sentir
o trinco da porta
a pele dos pêssegos

deixei de pegar
a água dos olhos
o rosto cansado

um buraco
nas mãos eu sou

e passei a sofrer

de um tipo de
nada
de um tipo de
capa
de um tipo de
longe
de um tipo de
outro

até o tempo
voltar

até me escorrer
dos teus dedos

me socorrer
de ti

matadouro

gralha

mataram Aymberê
mataram mataram
mataram Zumbi
Tiradentes
mataram prenderam mataram

mataram Olga Benario
mataram mataram
mataram Marighella
Vladimir
mataram prenderam mataram

mataram Chico Mendes
mataram mataram
mataram Dorothy
Marielle
mataram prenderam mataram

na enxurrada de sangue
e na erosão dos corpos
a nação-matadouro
perpetua ocos:
ética-oca
santos-ocos
ocas-notícias
justiça-oca
gente-oca

que ontem [e sempre]
nos prenderam compadre!
prenderam
as ruas os pobres
os negros os índios
meninas-meninos-vontades

e um dicionário de brasileiro
– língua tantas, suaaaaaaaave
rosto escuro, corpo samba
bola terra banho maní –
foi dado às traças.

para que minha
filha só fale inglês,
prenderam vozes
política direitos.
prenderam Lula
na terra fria do Paraná

***

mas era outono,
tempo de gralha
semear florestas

e de brisa que não cessa

engrenagens

carna

engoli a esquina
e esqueci o samba
morri em fevereiro

um trio elétrico passou
numa multidão surda
e eu restei em pó(ste)

se é triste partir?
pior é partir
no verão

quando não era pra isso
era pra ser só samba
era pra ser ciranda

mas eu caí; na algazarra
IPVA, IPTU, INTIMAÇÃO
meu peito estilhaçado

e eu, sequer, fantasia
eu não me fazia de herói
só beijos, só onda, só ar

mas meu tempo se escondeu
um pierrô me ocupou
e eu não vou mais brincar

Matilde

matilde

as janelas se fecham nas casas,
Matilde,
se você cospe
um irmão

as luzes se apagam na estrada,
Matilde,
se você atira
pedras num cão

os barcos se vão da praia,
Matilde,
se você tomba
ao pó a devoção

e o mundo se acaba,
Matilde,
no exato oco da sua mão

se o seu olhar
é amargo
se o seu sabor
é salobro
se o seu dizer
é escasso
se o seu estar
é inválido

e os poros colabam,
Matilde,
no convexo abraço seu

se o seu enredo
é pouco
se o arremedo
é largo
se o seu medo
é o passo

pois sem os seus dedos,
Matilde,

– eu preciso a você dizer, Matilde –

nada vai além
vazio é seu bem
você com ninguém

nem nada há,
Matilde,
nonada é
ninho vazio

e você?
ninharia