desajuizado

[um samba que me saiu pelas frestas]

ela não pensa quanta loucura
mora no seu coração
desvanece em madrugadas
quando sem palavras
silencia seu verão

eu me embriago então
pelas esquinas, malabares, multidão
me esparramo nas calçadas
torto e resolvido, grito em voz de batalhão

não quero mais ciranda, simplesmente
cansei de entorpecer meu coração
eu fico aqui calado e de repente
o amor vai me esquecer na solidão

ela se perde então
em labirintos pulsa o seu coração
da janela escancarada
grita o meu nome e se lança à procissão

eu desconjuro irmão
porque o desejo volta feito furacão
na avenida eu disparo
desajuizado, abraçado à ilusão

não quero mais ciranda, simplesmente
cansei de entorpecer meu coração
eu fico aqui calado e de repente
o amor vai me esquecer na solidão

doze

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

então míngua a sesmaria
que sobrevivia aos laços
em uma maré sem defesos
sempre a vazar destinos seus

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

isso que bebe toda firmeza
do quanto que houve rocha
a segredar em espumas, que o vivo
só vai no incerto do que está para

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a polir a pedra de Sísifo
e diluir as encostas
para fazer um sol na insistência
flutuante tempo a fabricar sabores

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

no novo verso desta boca
sempre velha moça desconhecida
a assoprar atalhos náufragos
desta carta que se navega a sós

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

o leito revolto e lúcido
feito a aposentar fantasias
isto tudo, sublime existência
a me ver horizonte-contrário

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a casta que esparrama um traço
cada escolha sã que nem não conheci
o barro que me cuspiu bicho
as mãos do povo que concebeu

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

água que bebe a terra que ergui
sempre que encerra o tempo que tive
canto que abraça o grito que dei
e este que vem naquilo que fui

sobre o

escrevo a tapas
foice a descer
palavras

[dirrisso
coiceio
esperneio]

a lápis grosso
quebra-pedras
na minha boca

[descalo
arregaço
chumbo]

porque os silêncios
são os olhos
da gente
quando há medo
no enxergar

[galopo
espanto
escarro]

que é a desarrolhar
o estradão dos poemas

pardal

um pássaro
é um passo
na direção
de Deus

nem que tudo
seja o
sem estradão

os destinos dormirão
no seu canto
sempreando
fantasias
de que viver
é uma ciência
a réguas

mas só sabe
o pássaro
quais segredos
são existir

esse insistir
nos ares
nas dores de
tudo o que se
está a parir

na promessa
do que não se sabe
no cálculo que
nunca fecha
desses quais
areiões em que
tantos pés
soçobraram:

pois garimpa fulano!

mas só sabe o pássaro
que toda certeza
se perde nos
arremedos ninhos
que são nuncas-mais
nisto que qualquer sol
em qualquer intenção
quer batizar destino

um porto a povoar sempre
os sonhos dos homens

enquanto um vôo
cego e arisco
no improviso de
todas as horas
calibra de falta e suspiro
a solidão de quem
tenta saltar

palavra em Andrade

preferia ver de costas
onde fazia um silêncio de gente
e abraçolhar a marola dos
morros que ali jaziam

e todo santo dia rezava
uma cachaça ardida no argumentar
que a vida é um conto
tortelongo demais, sem os capítulos

tao, dizia um verbo coxo:
que de todas as mortes
viver é a que mais trabalho enquer
e só há nela margens de sim e não

do amor descolara a ilusão de sã
“- hoje qualquer boca diz que ama
quando nos altares cupidos
só convive pressa seca em desengano

eu havi naquelas horas de cada
manhã louvada em bom dia; digo:
e a serventia dos vivos era o
apego à palavra que prometia eus

que nada vazio existia nas bocas
e se um corpo pecava aos nós,
era conta de um derrame de
certezas no fogaréu das missões

agora já não pesava a certo
o prumo das suas vontades,
e os óculos eram sempre a
desculpa para não maisver adiantes

ia em abandono do tempo verbal
a sublimar grito em sonolência
e misturava-se nada e tanto na
tormenta diária que nele escrevia

às preferências do tempo
soçobrou o Colombo que houve em si,
para conferir-se em praia onde
uns tantos lhe rabiscavam chãos

e de tanto experimentar-se poeta
nas manhãs de domingo
acordava palavra carla, rima
infinita a vulcanear moços sorrisos

e sempre um caminho, voz:
“viver é sempre uma estrada
atravessada das pedras
que a gente mesmo pariu”

testes divinos

a vida faz excursão
pelos dramas da gente

por que nos vale um
suporte da sua existência
o teste de que o mundo
se alimenta é dos nossos
cotidianos destinos, os nós.

quando final das tardes
vem um tempo brando
em transparecer que a
gente não é mais que as
contas no colar do divino

se há Ele, é o quem evita
perder as vezes das rezas
ao acariciar tantos juízos
enquanto divaga o universo
a parir quebra-cangalhas

e a gente copeja poeiras a
esquecer de que quase vale