leituras do despejo

estes óculos
já não me
servem mais

já não enxergo,
porque nada posso,
aquilo que reaver

eu aniquilo algo
oblíquo que me sempre
empunhou às faltas

porque só tenho agora
o encontro com a luz
daquilo que perdi

viver pode ser só navegar
distante de onde parti;
e isso é tudo

desajuizado

[um samba que me saiu pelas frestas]

ela não pensa quanta loucura
mora no seu coração
desvanece em madrugadas
quando sem palavras
silencia seu verão

eu me embriago então
pelas esquinas, malabares, multidão
me esparramo nas calçadas
torto e resolvido, grito em voz de batalhão

não quero mais ciranda, simplesmente
cansei de entorpecer meu coração
eu fico aqui calado e de repente
o amor vai me esquecer na solidão

ela se perde então
em labirintos pulsa o seu coração
da janela escancarada
grita o meu nome e se lança à procissão

eu desconjuro irmão
porque o desejo volta feito furacão
na avenida eu disparo
desajuizado, abraçado à ilusão

não quero mais ciranda, simplesmente
cansei de entorpecer meu coração
eu fico aqui calado e de repente
o amor vai me esquecer na solidão

diário de um torto

a mãe pariu abelhas
e aquilo que nunca
soube voar

viveu os tempos
no mato
a beliscar bichos
e assustar gente

zunia aquela caixa
na sua cabeça
que nunca foi nada
se não um
exército de tempos
a fazerem dó
os seus caminhos
e suas madrugadas

viveu seu corpo
frágil, marcado das
modas de seus ferrões

e passou liso e seco
raspado dos doces
sem nem não
conhecer rainhas

doze

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

então míngua a sesmaria
que sobrevivia aos laços
em uma maré sem defesos
sempre a vazar destinos seus

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

isso que bebe toda firmeza
do quanto que houve rocha
a segredar em espumas, que o vivo
só vai no incerto do que está para

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a polir a pedra de Sísifo
e diluir as encostas
para fazer um sol na insistência
flutuante tempo a fabricar sabores

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

no novo verso desta boca
sempre velha moça desconhecida
a assoprar atalhos náufragos
desta carta que se navega a sós

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

o leito revolto e lúcido
feito a aposentar fantasias
isto tudo, sublime existência
a me ver horizonte-contrário

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a casta que esparrama um traço
cada escolha sã que nem não conheci
o barro que me cuspiu bicho
as mãos do povo que concebeu

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

água que bebe a terra que ergui
sempre que encerra o tempo que tive
canto que abraça o grito que dei
e este que vem naquilo que fui

sobre o

escrevo a tapas
foice a descer
palavras

[dirrisso
coiceio
esperneio]

a lápis grosso
quebra-pedras
na minha boca

[descalo
arregaço
chumbo]

porque os silêncios
são os olhos
da gente
quando há medo
no enxergar

[galopo
espanto
escarro]

que é a desarrolhar
o estradão dos poemas