banhos-de-mar

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e rasgam a minha pele grossa
os dias em que eu não navego
as terras de que não me perco
as luas que não vou encontrar

se me cabe acontecer no mar
o tempo no cais me des-espera
longos dias a me parir adentro
contra a maré à beira-de-estar

é tanto lastro no peito da gente
que nem todas as brisas levam
e nem todo mastro teso espaça
o nó que a gente enreda pra si

e até que a pele arrebente em litoral
vão pregos no tempo de quase zarpar
enquanto os olhos tramam dor e querer
me abrigam mudo em banhos-de-mar

remanso

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não invento segredos
palavras é que raleiam
quando não há porto ou cais

volantes como marés
cantos só são nos ouvidos
e som não vai onde nada há

então me pedes o que
carpideira de quem nunca vi?
o oco sussurro de quem já partiu?

não remendo silêncios
nem se alcança de salto
o vesgo do barranco

é no remanso das bocas
o teu rosário e noventa
torta ladainha em dó
a te fazer escutar

amor-fumaça

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quais cores perdi
te olhava detrás da vidraça
vais? não compreendi
devo mentir; é amor que passa

há tempos demais
os ponteiros são tolas trapaças
tens quandos de mim
pouco talvez; amor sem graça?

mesmo que os dias me calem
sonho um turbilhão
mesmo teu corpo já raro em minhas mãos
amor também é solidão

mesmo que os livros te falem
fuja a uma oração
mesmo assustado teu doce coração
amor também é confusão

há flores pra mim
já te vejo a correr pela praça
vais? já compreendi
o teu amor é pressa ou nada

sei me refazer
destilar o amor em cachaça
queima meu peito em nãos
talvez o amor seja fumaça

mesmo que os dias me calem
sonho um turbilhão… Continue lendo "amor-fumaça"

canção para frestas

nem pensava ser revirado
nem perder a certeza
nem previa este escampado
nem mais nova princesa

que me veio num fim de dia
luz, azuis, pés na areia
de roubar fôlegos e vistas
me enredar suas teias

serena, verbena
que me desejou
em asas, sem casa
inteiro no amor

mas o tempo moço severo
ilusões não daria
e das frestas faria nadas
a soprar seus não queros

e vencidos pelos compassos
que juramos perdidos
são os muros que fazem regras
águas são só jazidos

serena, verbena
que me imaginou
em asas, sem casa
perdido do amor

cabotagem

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quanto mais te calas
grassa um calo seco.
e ata a tua garganta

quanto mais espaça
mais denso o lastro.
calcária espera de janela

quanto mais te partes
mais descreves arcos.
estreita cabotagem de si

pois se não te podes ir do amor
e jeito não há ao todo querer
peças por júri, mora, apelação

se já não há nada que é certo
já não é nada que saibas.
que te faças onde te perdes

e nisto de ancorar, defeso,
no tempo rabisque barcos
longas redes lançadas a
recolher quintais

de vascos, cabrais, fernãos: nada
nem cabos, naus ou terra nova.
nem amor que vá onde não há

só um compasso de parcos metros
só o impossível desfazer amarras

só o balanço das águas
no baixo do cais

e vertigem de amor
à beira mar

samba sem graça

portavocê me dispensou
dizendo que nunca
devia ter sido meu amor
eu, antes só sorte, virei fumaça
meu tempo de graça terminou

e agora onde ando, meu bem
eu só vejo, embaraço, teu desdém
não é justo o veredito do amor
não te troco por ninguém

toda rua onde passo, meu bem
eu vou torto, não disfarço, me convém
não me cabe outro amor, satisfação
sou o rei dos zés-ninguém

você me escutou
cuspindo meu samba
que não mais servia ao teu amor
eu, de quase morte, chamei cachaça
meu livro-de-letras mandingou

e agora onde ando, meu bem
só me vejo, entre abraços, passo bem
é tão torto o veredito do amor
você já não é vintém

toda rua onde passo, meu bem
me amassam, vou aos braços, qual neném
estou cheio de amor, no coração
já não quero mais ninguém