sete recortes para partidas

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I
você já era tarde;
no adeus,
o alívio me fez febre

II
já não estás;
eu, farta,
vôo ao próximo verão

III
nem o fiz um aceno;
saltava, sã,
noutra estação

IV
não te vi sair;
vigiava o arroz,
ligeiro mais importante

V
tantas vezes morri;
por te apagar
brotou-me como sorrir

VI
temia as memórias;
sozinha, aprendi
a lembrar o futuro

VII
parti quando calamos;
esse silêncio, só, é
a cantiga que te fiz

sete vezes

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vivi ao
teu lado

quase-ano
de cão

tudo somou
por sete

sete vezes
mais vontade

em caça
te converti

sete vezes
mais verdade

em pelo
te conheci

sete vezes
mais saudade

aos saltos
te recebi

sete vezes
mais faminto

aos rasgos
te carcomi

sete vezes
mais espera

de raiva
me envelheci

sete vezes
mais calado

sete vezes
mais cansado

sete vezes
corpo castrado

nas luas
me perverti

até abichar
meus olhos

até desabar
em patas

até desalmar
em ladra

a poesia
que escrevi

cascas

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pois as minhas quedas são dentro
não é que não vou; não vês

que quando anoiteço
é nas esquinas do peito
que eu tropeço cansado

e que mais amargo não há
que os pedaços do meu silêncio

se me amarro? confesso
é nas curvas das minhas tripas
que eu escondo os descasos

e aposto que mais fundo não há
que os poços nos quais me atiro

diário me fiz casca grossa, verdade
o tempo só me inverteu as coisas
e para cada pétala… espinhos

porque mais ódio não há
que no andor do caminho

enquanto hora entristeço
hora me estrepo
hora disparo
hora a hora

aos faros eu caço
tão incansável
o que há de
bicho e
besta

aqui

longe, outro e capa

princesa
usei demais as luvas
que ganhei de ti

e já esqueci
minhas mãos

onde é pano
onde sou
onde és

fiz-me um nó
cola de ti
sombra, talvez

talvez

talvez eu
nem saiba quão
rígido e frio
meu aceno
se fez

deixei de sentir
o trinco da porta
a pele dos pêssegos

deixei de pegar
a água dos olhos
o rosto cansado

um buraco
nas mãos eu sou

e passei a sofrer

de um tipo de
nada
de um tipo de
capa
de um tipo de
longe
de um tipo de
outro

até o tempo
voltar

até me escorrer
dos teus dedos

me socorrer
de ti

engrenagens

carna

engoli a esquina
e esqueci o samba
morri em fevereiro

um trio elétrico passou
numa multidão surda
e eu restei em pó(ste)

se é triste partir?
pior é partir
no verão

quando não era pra isso
era pra ser só samba
era pra ser ciranda

mas eu caí; na algazarra
IPVA, IPTU, INTIMAÇÃO
meu peito estilhaçado

e eu, sequer, fantasia
eu não me fazia de herói
só beijos, só onda, só ar

mas meu tempo se escondeu
um pierrô me ocupou
e eu não vou mais brincar

prece

concrete

contraiu cimento

polvo opaco

que lhe

chumbou ventas

e por ques

 

andou a prumo

tartarugado

e fez de

seu amor um

adro (árido)

 

estacou a casa

arrimou a dor

e rejuntou as

frestas de luz

meticulosamente

 

e como pouco

 

armou um muro

que escondeu cada

verbo-de-liga

 

e fez a

cadeados

sua intenção

 

o rosto

caiado fez

descaso

do sono

do mundo

 

e ainda pouco

 

embotado

evoluiu a piche

até tornar-se

asfalto de si

 

e sob pressas

descansou

amarga

paper

não entendi

 

você se recobriu de febres

para tirar os olhos do amor

 

sugou 12 vidros de analgésicos

mimetizou-se oca em sua cama

chorou o tanto exato de uma represa

 

pintou as unhas de preto

raspou a sua cabeça

perdeu as botas vermelhas

retalhou o vestido lilás

 

descoloriu a cortiça

esvaziou as garrafas

nunca mais saiu à janela

deu para apagar as luzes

precisamente às 21 horas

 

não entendi

 

você se picou de cobras

para morrer incansáveis vezes

 

desapareceu no espelho

mudou o seu endereço

e cancelou 16 subscrições

 

elegeu outro sol no seu mapa

queimou o cartório: sua garantia

opôs-se ao jeito destro, que era o seu

e cessou de pensar em português

 

escondeu-se em infinitas florestas

atravessou empedradas montanhas

e nunca mais provou chocolate

sublimando-se em um bicho mudo

precisos 23 dias depois daquele não

 

não entendi

nunca entendi

 

era apenas

um não