doze

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

então míngua a sesmaria
que sobrevivia aos laços
em uma maré sem defesos
sempre a vazar destinos seus

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

isso que bebe toda firmeza
do quanto que houve rocha
a segredar em espumas, que o vivo
só vai no incerto do que está para

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a polir a pedra de Sísifo
e diluir as encostas
para fazer um sol na insistência
flutuante tempo a fabricar sabores

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

no novo verso desta boca
sempre velha moça desconhecida
a assoprar atalhos náufragos
desta carta que se navega a sós

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

o leito revolto e lúcido
feito a aposentar fantasias
isto tudo, sublime existência
a me ver horizonte-contrário

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a casta que esparrama um traço
cada escolha sã que nem não conheci
o barro que me cuspiu bicho
as mãos do povo que concebeu

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

água que bebe a terra que ergui
sempre que encerra o tempo que tive
canto que abraça o grito que dei
e este que vem naquilo que fui

todo setembro – 2

à parte do fardo
a poesia leva ao
tempo os rebentos
da minha terra

o sotaque que
tem meu espanto
é esta ração cortada
a tradução do toco
os tais meus maiores
silêncios nos fogos
da artilharia

à parte dos olhos
estonteados
a devorar em
vontade aquilo
que no talvez
só seja o que
se espera da
minha boca

sigo em invenção
de eus não nos
horrores da guerra

porque o enxergar
das trincheiras é,
dos quaisquer
desesperos,
a pior cegueira
dos homens

todo setembro

meu pensamento
é estado de poesia

desorganizo, logo existo.
metaforizo, lento insisto.

tenho rabiscos
entre minhocas
e coçeiras em
fazê-los vivos

minha pele é
o longo campo
de cantos,
jazida semântica
a jorrar
nós-de-garganta,
desesquecimentos

só sei de mim
em transpirar palavras:

sou
as minhas sentenças

sempre infâncias

o mundo, era do tamanho
da rua da minha casa à
escola professora Kazuco Ohara

de tão pequeno, ele era bonito

no campinho fiz meus primeiros gols
e ali experimentei o nascer da inveja:
como jogava bem o tal do Saraiva

de tão bom, a gente tinha medo

cresci em uma descida, e o
desejo era ser o time a atacar para cima
– ainda tento entender o porquê.

de tão torto, meu coração só conheceu enxurrada

naquele dia eu conheci Renata
tinha sorriso bonito e pele
que entendi morena. pouco toquei

de tão longe, evaporou de todas as tardes

foi a primeira, onde tudo ainda é.
ainda vou à escola no depois do almoço
enquanto Renata deixa a rua vazia

ensaio sobre setembro – 3

o tempo não tem cabeça
nos ocupa e encarna
que é para saber pensar

será que a gente é o sonho do tempo?

lembro um filme que não assisti.
o homem era um delírio
era um homem sonhado
um tipo de sombra
amarrada a outra
existência – indisvencilhável.
pode uma sombra existir sem coisa?

o tempo sonhava o homem
a coisa sonhava o homem
a pedra pensava o tipo
o rótulo, a nota, o nada
tudo o sujeitava,
ele era diminuído de si:
um fantasma

o sujeito era só um caminho
sua vontade, outra decisão

curioso:
ele votava
ele comprava
ele elegia nos menus
ele escolhia profissão
ele crivava amizades
ele lia revistas
escolhia lados e amores

pensava que pensava
irritava-se até,
na tola certeza
do quem manda aqui sou eu

será que não sabia dos poderes do tempo?

ensaios sobre setembro – 2

eu não conheci
a orgia dos padres
não roubei vinho
em sacristia
ou adormeci ao som
sufocado dos coroinhas

eu não atravessei
bêbado a fronteira
dos corpos amontoados
não fiz promessas
no vazio do ventre
das multidões

eu escolhi dia de chuva
para começar sapatos novos
joguei bola no morro a cima
deixei de fora o dinheiro
quando dei em comprar sentidos

eu não escalei palanques
fiz um arquivo morto de gravatas
recolhi, para perguntar das frestas
e descansei em dias de sol

agora, atravessei a rua
que levo tatuada no corpo
que é pra visitar
o outro lado de mim; e vou.

tenho lentes nos olhos
que são pra filtrar
o que desbota os dias

e procuro…

do teu medo
eu nunca fugi

tenho asas magras,
de alguma serventia

quero.
não espero
viver na tua boca

palavras-talheres

Era dia 11 e eu comemorava aniversário. Das mãos de um monte de gente querida, que rodaram um guardanapo e tinta verde, nasceu uma poesia assim, feita de mesa, feita em presente pra mim:

uma massa fresca
uma flor vermelha
três décadas e sóis
sete mesas geniais
mulheres grávidas
um beijo vermelho da Deise
bolo de chocolate com cinco brigadeiros
toalha te-adoro
bolinhos recheados,
de gorgonzola, nunca mais!

são paulo acolhe tudo isso
29 amigos e 15 copos de cerveja
tomates secos pisoteados
fome porre fome
agente quer comida!
direito de repetição
uns chegam outros partem
precisamos de mais
flores, de mais você.

E me entregaram, não assinaram, mas está tudo aí. Eu juro. Viva a poesia, viva-poesia. Viva o ter amigos, porque nada é mais.