Matilde

matilde

as janelas se fecham nas casas,
Matilde,
se você cospe
um irmão

as luzes se apagam na estrada,
Matilde,
se você atira
pedras num cão

os barcos se vão da praia,
Matilde,
se você tomba
ao pó a devoção

e o mundo se acaba,
Matilde,
no exato oco da sua mão

se o seu olhar
é amargo
se o seu sabor
é salobro
se o seu dizer
é escasso
se o seu estar
é inválido

e os poros colabam,
Matilde,
no convexo abraço seu

se o seu enredo
é pouco
se o arremedo
é largo
se o seu medo
é o passo

pois sem os seus dedos,
Matilde,

– eu preciso a você dizer, Matilde –

nada vai além
vazio é seu bem
você com ninguém

nem nada há,
Matilde,
nonada é
ninho vazio

e você?
ninharia

rebelião

knot
Eu não moro mais na dor
Eu fui embora de mim
Fiz da casa em que me tinha
Seu poço de saudades
Anzol na sua mão

E hoje sou tempestade
Corro a cidade, nua
Sou muitas, sou mil meninas
Nenhuma delas, sua

Me banhei em sete mares
Em todos os lugares
Vivi um grande amor

E venci em novas guerras
Plantei na minha terra
A minha direção

E hoje sou intensidade
Como a cidade, crua
Sou tanto, sou mil meninas
Nenhuma delas, sua

Desenhei a minha arte
Levei meu estandarte
Em meio à multidão

E bebi todas as letras
De novos argumentos
Me fiz em construção

E hoje sou liberdade
Tomo cidades, ruas
Sou todas, sou mil meninas
Nenhuma delas, sua

Nunca mais, entre paredes
Pensei uma pessoa
Fiz disso intenção

E os grilhões de outras tantas
Quebrei com nossas tranças
Nossa rebelião

E hoje sou diversidade
Mais do que sol, sou lua
Sou tudo, com mil meninas
Nenhuma delas, sua

teorema

lights

quem não se cura
com o tempo,
não vai despertar

quem não levanta
na queda
não vai mais voar

quem não comprende
o corpo
na palma da mão

quem não conhece
o gosto
do céu e do chão

não poderá
não poderá

quem foi ao mar
e voltou
depois de um furacão

quem conheceu
o silêncio
e a lei do cão

quem foi além
do que lhe ordenou
o patrão

quem se fez forte
mistura
Pará e Sertão

renascerá
renascerá

quem não se escuta
a ninguém
saberá escutar

quem não se perde
na estrada
não vai se encontrar

quem não desiste
do curso
não pode aprumar

quem não se enrola
ao mundo
não conhecerá

nem saberá
nem saberá

quem não se faz
um problema
não tem solução

quem não se mede
nas ruas
não tem direção

quem não se baila
sozinho
não vai cirandar

quem não se quebra
em pedaços
não pode amar

nem partirá
nem partirá