Calcutá

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lua em vermelho e
os dias em Calcutá
de esquinas e nãos

volto a beber areia
torna a teia em tez
o nada não tem fim

o tempo come tudo
água se faz em sais
o verde em ilusões

faíscas à beira mar
de fronteiras azuis
e pás de reversões

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar

de Djavan bebi o a
de Caetano o seu cê
Julinho nem cantou

vai roto um manual
caducas as sessões
e o tempo explodiu

vento veio por fins
longe se pois perto
e o cais se encostou

o medo é que o amor
tão e tanto ancorado
queira partir de mim

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar

voto

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que te amem
intensamente
para que te sintas [bem]

que te beijem
lentamente
para que te proves [doce]

que te elogiem
frequentemente
para que te saibas [bom]

que te olhem
curiosamente
para que te penses [nu]

que te critiquem
esporadicamente
para que te vejas [gente]

que te machuquem
pontualmente
para que te cures [forte]

que te paguem
corretamente
para que te dês [valor]

que te impliquem
politicamente
para que te vás [autor]

e que te acolham
e te ampliem
e te diluam
no tempo
no povo
na rua
no eu

e te imprimam
mãos coloridas
abadás, santos
letras e gêneros

para que tu sejas mil
pedaço da multidão
dona da cidade
[pés e poder]

num feixe de gente em riste
viva e desejante
de um tempo de todos

vulto

vulto

algo te escreve

imprecisa mão
que não vês
– e não podes –

texto dentro
do outro
a te fazer
de efeitos

tu és
um feixe
um gosto
um lapso
um parto

ou apenas
estação

onde
desembarcam
vozes
vultos
vontades

tu és um quase
um quando
um tipo
um só
um

e tão
pouco
sabes

quase
nada
escolhes

entre ir
ou não
vives
de apostas

és um
risco
de si

 

lição de física a minha filha

board

não me caiu
maçã na cabeça
mas conheci a
Gravidade do amor
aos trinta e oito anos

tornou-se lei

mudei o preciso
de um seno
por um
manente senão
e curvei o
ângulo de enxergar

mudou o cálculo
para o que
era um
fazer-se
linha e borrão

amor + amor
e um pai
se fazer dois
antes e depois
de ti

as verdades
pedaço e
clarão
deram
linha de fuga
a um antes
em plasma

e reinventei
tempos
cantigas
cirandas

o ponto
virou vértice
e de quadrado
me vi raiz
um tanto
mais funda
um pouco mais

pai-ciência
pai-lhaço
pai-xão
paí-ó

pra
te pegar no colo
ser teu guardião
tua afirmação
diversão
conta

e dilatar o tempo
esperando
operando
silenciando

até me tornar
só fórmula
uma lembrança
de mim

tu = [eux + só(teu)] / mundo

e te deixar um x
pra dele se fazer 0
e eu apenas 1
mais um
dos teus

prece

concrete

contraiu cimento

polvo opaco

que lhe

chumbou ventas

e por ques

 

andou a prumo

tartarugado

e fez de

seu amor um

adro (árido)

 

estacou a casa

arrimou a dor

e rejuntou as

frestas de luz

meticulosamente

 

e como pouco

 

armou um muro

que escondeu cada

verbo-de-liga

 

e fez a

cadeados

sua intenção

 

o rosto

caiado fez

descaso

do sono

do mundo

 

e ainda pouco

 

embotado

evoluiu a piche

até tornar-se

asfalto de si

 

e sob pressas

descansou

amarga

paper

não entendi

 

você se recobriu de febres

para tirar os olhos do amor

 

sugou 12 vidros de analgésicos

mimetizou-se oca em sua cama

chorou o tanto exato de uma represa

 

pintou as unhas de preto

raspou a sua cabeça

perdeu as botas vermelhas

retalhou o vestido lilás

 

descoloriu a cortiça

esvaziou as garrafas

nunca mais saiu à janela

deu para apagar as luzes

precisamente às 21 horas

 

não entendi

 

você se picou de cobras

para morrer incansáveis vezes

 

desapareceu no espelho

mudou o seu endereço

e cancelou 16 subscrições

 

elegeu outro sol no seu mapa

queimou o cartório: sua garantia

opôs-se ao jeito destro, que era o seu

e cessou de pensar em português

 

escondeu-se em infinitas florestas

atravessou empedradas montanhas

e nunca mais provou chocolate

sublimando-se em um bicho mudo

precisos 23 dias depois daquele não

 

não entendi

nunca entendi

 

era apenas

um não

 

ensaio sobre a partida

casa

tua morte chegou
numa sexta-feira

fazia frio na tua cidade

te puxou pelos cabelos
e tomou teu corpo
lenta e definitivamente
até te colocar um ponto

não houve medo ou dor
quando teu peito parou

só a brisa fria no teu rosto

teus olhos brilhantes
se alargaram até o final
não queriam te esconder
da luz que tanto conhecias

mas teu tempo estilhaçou-se
em minutos infinitos

e os dias de tua mãe cessaram

sem os porquês da tua boca
a vontade nos teus pedidos
o trânsito intenso do teu corpo
tuas cirandas na varanda

teu barulho ainda se escuta,
sustos, nesse monjolo-de-horas

na porta que batias furiosa
no telefone que avisava de ti
na música que batucavas
no tom em riste da tua presença

e tua ausência fez da casa a
lama mais densa que já existiu

quase nada se move
quase ninguém respira
a fé limita-se a um sufixo
quente que amarga a boca

só teu registro ficou impresso
em papéis, paredes e na pele

e a cidade nunca mais aqueceu

não houve mais justiça
festas não se repetiram
não coube mais intervalos
o beijo terminou sem gosto

tudo tornou-se impossível:
água, livros, noites, gente

vida em q.s.p. esperar por nada


escrevo sobre isto
sete anos antes de
da tua partida

uma alavanca
no sentido
que não haverá

tentativa de
processar

arremedo
de sentir

receita contra
o destino

ou
ensaio
para que
eu possa me
despedir
de ti