casa de vozes

eu moro em uma casa de vozes
eu moro mesmo entre as palavras
moro nos sujeitos, moro no verbo
moro nos pontos, poros, entrelinhas

eu tenho amigos nessa casa de vozes
e moro nas suas tantas sentenças
ora moro no amor, ora nas desavenças

se tenho respostas pra todas as coisas
é nas perguntas que eu moro mais
na não-coisa em que a coisa-se-faz

eu moro em uma casa de vozes
eu moro nesta amarra de nós

e sei gostar dos que desato
e também do que empedra
do que não vai
que não se diz
que não se inscreve
em cada um de nós

parte de mim

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vai, é teu tempo de navegar
solta os laços
vai ter o mar
se há nós
te atando ao cais
toma o vento
e parte de mim

vai contigo sob o luar
noites tristes
são sempre assim
arremesso e arrebentações
tantos portos e solidões
e o mar não quer terminar
não há volta e onde atracar
se um naufrágio chamar por ti
pede ao tempo pra te enredar

melodias com teus irmãos
não ancora teu coração
vai às ruas vai caminhar
deixa o mar se esquecer de ti

numa esquina um dia comum
quando o sol já morar em ti
diz ao céu um verso qualquer
pede ao vento trazer pra mim

que te escuto tão longe amor
e tão longe é dentro de mim

Imagem de dakhlallah, Pixabay.

insistências

concrete-wall-3176815_1920não há verso
cansado demais

as aves sim
se cansam
os homens sim
se esquecem
as pedras sim
desgastam
e todo tempo
longo se esvai

mas palavra
não cessa
e vontade
não passa

pois até os
mortos falam
nos vivos

memórias que
podem tanto
segredos que
mudam tudo
sonhos que
rasgam corpos

e até as paredes
quando escutadas
têm melodias
e conselhos
a dar

sete recortes para partidas

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I
você já era tarde;
no adeus,
o alívio me fez febre

II
já não estás;
eu, farta,
vôo ao próximo verão

III
nem o fiz um aceno;
saltava, sã,
noutra estação

IV
não te vi sair;
vigiava o arroz,
ligeiro mais importante

V
tantas vezes morri;
por te apagar
brotou-me como sorrir

VI
temia as memórias;
sozinha, aprendi
a lembrar o futuro

VII
parti quando calamos;
esse silêncio, só, é
a cantiga que te fiz

se-tem-bro ser-tem-po

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o tempo é nada disso
não vem a nos devorar

não torna o amor sereno
não dilui nossas pedras
não faz das memórias ocos
e nem nos põe a pensar

o tempo, pois, não é menos
não joga no vem-e-vai

não vem pra armar o palco
não faz pra nos confortar
não muda as nossas caras
não vem cá desenganar

o tempo, então, é só brisa
que o corpo tenta inalar

pra ver o que se enxerga
morar naquilo que passa
saber onde enfim se pisa
ser um-pouco ancorar

o tempo é pura presença
vem denso assim como mar

e bate no peito em ondas
e nos lança a balançar
e assusta quem já não quer
e amarga quem já não está

o tempo é nada disso
não quer gente rarear

é contingente infinito
redor que bem sempre está
e enquanto o cabra respira
não teme nunca em faltar

sete vezes

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vivi ao
teu lado

quase-ano
de cão

tudo somou
por sete

sete vezes
mais vontade

em caça
te converti

sete vezes
mais verdade

em pelo
te conheci

sete vezes
mais saudade

aos saltos
te recebi

sete vezes
mais faminto

aos rasgos
te carcomi

sete vezes
mais espera

de raiva
me envelheci

sete vezes
mais calado

sete vezes
mais cansado

sete vezes
corpo castrado

nas luas
me perverti

até abichar
meus olhos

até desabar
em patas

até desalmar
em ladra

a poesia
que escrevi

Mirante

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ora estrelas nas ondas
ora saveiros no ar
em horizontes confusos
danço a passos em nó
de nem lá nem cá

tenho este estado de nadas
nem mesmo sei meu lugar
em todo porto um parte
porque outro um vai ficar

em cartas d’água desenho cais
mas nem há tempo de ir pra trás
de nada servem os mapas, pai
se para olhos fechados
os sóis são jamais

menino recolho as tralhas
atordoado vou me atirar
nas noites que se refazem
sou tentativas de longe
sem nada arredar

velas de vento soprar
velas do tempo apagar
velas o corpo já posto
velas o amor a filtrar

ora estrelas nas ondas
são saveiros no ar

cascas

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pois as minhas quedas são dentro
não é que não vou; não vês

que quando anoiteço
é nas esquinas do peito
que eu tropeço cansado

e que mais amargo não há
que meu silêncio em pedaços

se me amarro? confesso
é nas curvas das minhas tripas
que eu escondo os descasos

e aposto que mais fundo não há
que os poços nos quais me atiro

diário me fiz casca grossa, verdade
o tempo só me inverteu as coisas
e para cada pétala… pau

porque mais ódio não há
que no andor do caminho

enquanto hora entristeço
hora me estrepo
hora disparo

aos faros eu caço
tão incansável
o que há de
bicho e
besta

aqui