linha de passe

lei
São Paulo são esses vultos
uma porção de gente
espremida em silêncios:
a cidade está em guerra!

os manos são esquinas vazias
encruzilhadas bélicas
em eterno não ter por onde…

enquanto você goza,
covarde, canalha, finge –
você não pode ver.
enquanto compra asfalto,
limpeza, pontes, médicos de faz-de-conta,
giram metralhadoras a cuspir
palavras, porradas e pedidos

as minas explodem pisoteadas
nos corredores da linguagem fálica
– são apenas pedaços de carne
a abastecer cozinhas, latrinas
e motéis baratos; não são mulheres.
são artefatos soterrados, risco necessário

e a cidade cospe fogo
na sua constipação diária, paranóica.
veias arregaladas,
a cidade cheira e fuma
em nóia agonizante.
usa túneis para esconder rostos
e um silêncio mecânico
– olímpico –
no êxtase das linhas de produção

a cidade não existe!
São Paulo é um
continente em disputa.
campo de batalha que
arrebentou são jorges,
são bentos, são lucas…
sé-fé-roubo.

a cidade é um discurso ao avesso:
espaços, buracos, afastamento,
a cidade é salto-à-distância

São Paulo. São Paulo?
São Paulo é não compreender.
São Paulo é nossa Grande Falha
São Paulo não é uma cidade.
São Paulo é pergunta permanente,
ameaçadora.

ensaios sobre setembro – 2

eu não conheci
a orgia dos padres
não roubei vinho
em sacristia
ou adormeci ao som
sufocado dos coroinhas

eu não atravessei
bêbado a fronteira
dos corpos amontoados
não fiz promessas
no vazio do ventre
das multidões

eu escolhi dia de chuva
para começar sapatos novos
joguei bola no morro a cima
deixei de fora o dinheiro
quando dei em comprar sentidos

eu não escalei palanques
fiz um arquivo morto de gravatas
recolhi, para perguntar das frestas
e descansei em dias de sol

agora, atravessei a rua
que levo tatuada no corpo
que é pra visitar
o outro lado de mim; e vou.

tenho lentes nos olhos
que são pra filtrar
o que desbota os dias

e procuro…

do teu medo
eu nunca fugi

tenho asas magras,
de alguma serventia

quero.
não espero
viver na tua boca

palavras-talheres

Era dia 11 e eu comemorava aniversário. Das mãos de um monte de gente querida, que rodaram um guardanapo e tinta verde, nasceu uma poesia assim, feita de mesa, feita em presente pra mim:

uma massa fresca
uma flor vermelha
três décadas e sóis
sete mesas geniais
mulheres grávidas
um beijo vermelho da Deise
bolo de chocolate com cinco brigadeiros
toalha te-adoro
bolinhos recheados,
de gorgonzola, nunca mais!

são paulo acolhe tudo isso
29 amigos e 15 copos de cerveja
tomates secos pisoteados
fome porre fome
agente quer comida!
direito de repetição
uns chegam outros partem
precisamos de mais
flores, de mais você.

E me entregaram, não assinaram, mas está tudo aí. Eu juro. Viva a poesia, viva-poesia. Viva o ter amigos, porque nada é mais.

torneira do tempo

bobbin-56511_1920

hoje relampeja.
chuva? Nada

a torneira
pingava o tempo
em ladainha

eu nadava as gotas
enquanto
concebia em esperança
um rio de devaneios
e viver em vertigem

sentia na cabeça:
existir é pescar.
importa fome
e desejo
nem sempre se sabe
tanto um, quanto outro
mas hão,
emaranhados

arremesso em tempo de lesma
tatear no caladão das horas
insistir sobre a perda
recolher sabedoria e gosto.
o peixe, no às vezes
dos dias

no barranco
recolho os olhos
aqui era um dia seco.

defeso do azul
enquanto está
cada vez mais
em mim,
que toda
torneira
é um rio
que desistiu

ensaios sobre o ver – 8

cego
eu sonho…

na máquina
dos olhos
aquilo que
me opera.
tempos feito
engrenagem

passagens do
dentro e fora
hora-a-hora
abandonadas:
deixo as separações

à máquina
não se engana
inteiras plenas
percepções.
chega
até onde faltam
meus pensamentos
entende
no onde
escapo calo
minha voz

máquina-do-tempo
os olhos
do sem contorno
eterna partida
e retorno
em direção
à matilha de mim

[a imagem que acompanha a poesia conheço por máquina-do-corpo e foi gentilmente cedida por André Brandão]

comentários a el grand masturbador

dali
entardece o dia em tímidos vermelhos,
meu rosto pálido curado no tempo seco
é um fruto no tronco em infinito inverno

toca um vento amarelo os olhos,
dias e noites me emprestam espíritos
quando sou nada mais do que respiro

deserto, meu corpo é uma ampulheta
cíclica, máquina-do-tempo sem fim
máquina-de-areia em uma obra infinita

caçador que aprisionou um coração
engaiolado e pulsante, memória do
dia que vai surgir na curva das horas

o rosto é também medo da serpente
pesadelo adotado da infância tribal
sedução e vaidade que é e assombra

e a tudo devoram as águas do tempo.
não há tanto assim no largo horizonte
e minha palavra é um barco-besouro.

procuro, logo existo. Sou essa busca
soprada de escuta em escuta, olhar em olhar
entre portos que não ouso, talvez, ancorar