Atrevidos

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lá dentro da quaresmeira da linda mangueira
há uma obra em arte,
pitiguaris
de dorso preto
e de peito amarelo,
quase limão,
poetas de orvalho

somos Pitiguaris
cantando aqui e ali,
se a alguns só piamos,
para outros cantamos

nós somos atrevidos,
entoamos canções
que ninguém quer ouvir,
ninguém ousa sentir

se a vida é uma composição,
nela vivemos nos fios,
dançamos em altos e baixos,
pra escrever a nossa canção

mas lá na selva de pedra em dias deserto
a mangueira secou
Pitiguaris
de plumas vermelhas
e de peito aberto
quase irmãos
poetas do asfalto

somos Pitiguaris
escrevemos nos muros,
se a alguns assustamos,
outro sonho embalamos

nós somos atrevidos,
insistimos canções
que ninguém quer ouvir,
só alguns vão sentir

se a vida é uma composição,
nela vivemos nos fios,
dançamos em altos e baixos,
percorrer a nossa canção

Link para a canção

[a letra é parceria com o querido amigo Cometa; a melodia é dele]

caronte.br/manifesto

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feras em sulcar a terra
somos bons em túneis.
ases em fazer voragem
cavamos como a nadie.

fossos em poucos dias
poços de longa queda
fendas, cavas ou furos
descemos like nobody

é tão linda a parede de
terra que jaz sobre nós
sombra e frio nos ocos
dos sítios de lama e pó

special prices: toll-free!

neste perau dos povos
vendemos trincheiras
e coutos a quem teme
a treva do mais-de-um

e viramos paz em pás
para te dar a graça de
um abismo privado só
very important person

para que gastar em asas
se te entregamos covas?
fast track para chegares
ao lado avesso da cidade

watch out & vote for us!
make Brazil great again

[o tribunal eleitoral avisa]
[contém 9 doses de ironia]

matadouro

gralha

mataram Aymberê
mataram mataram
mataram Zumbi
Tiradentes
mataram prenderam mataram

mataram Olga Benario
mataram mataram
mataram Marighella
Vladimir
mataram prenderam mataram

mataram Chico Mendes
mataram mataram
mataram Dorothy
Marielle
mataram prenderam mataram

na enxurrada de sangue
e na erosão dos corpos
a nação-matadouro
perpetua ocos:
ética-oca
santos-ocos
ocas-notícias
justiça-oca
gente-oca

que ontem [e sempre]
nos prenderam compadre!
prenderam
as ruas os pobres
os negros os índios
meninas-meninos-vontades

e um dicionário de brasileiro
– língua tantas, suaaaaaaaave
rosto escuro, corpo samba
bola terra banho maní –
foi dado às traças.

para que minha
filha só fale inglês,
prenderam vozes
política direitos.
prenderam Lula
na terra fria do Paraná

***

mas era outono,
tempo de gralha
semear florestas

e de brisa que não cessa

voto

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que te amem
intensamente
para que te sintas [bem]

que te beijem
lentamente
para que te proves [doce]

que te elogiem
frequentemente
para que te saibas [bom]

que te olhem
curiosamente
para que te penses [nu]

que te critiquem
esporadicamente
para que te vejas [gente]

que te machuquem
pontualmente
para que te cures [forte]

que te paguem
corretamente
para que te dês [valor]

que te impliquem
politicamente
para que te vás [autor]

e que te acolham
e te ampliem
e te diluam
no tempo
no povo
na rua
no eu

e te imprimam
mãos coloridas
abadás, santos
letras e gêneros

para que tu sejas mil
pedaço da multidão
dona da cidade
[pés e poder]

num feixe de gente em riste
viva e desejante
de um tempo de todos

moscar

wire

os tempos eram
tão confusos
que até o passado
era incerto

onde havia fardas
deram para enxergar copas

onde havia amor
viam hemorragia

tudo preto tudo branco
achincalhando cores
muros, bocas, olhares

cerveja corn
carne de papel

a virtude?
bits outros
gente virtual

sem padres
tudo-podia

reis sem cabeça
nas ruas e prisões

mas havia propaganda
e casais rodopiavam

uns poucos
em salões de cristal

outros tantos
apenas como moscas

num fiozinho de luz
elétrica

igrejas

nós pega o pexe, José
faz um pirão daqueles
de fazer rir as orelha

– era o que gostava o Coronel, pois.
que de nada gosto em lembrá

nós pega hoje é pra nós mesmo.
o dele fazia sempre em correção
nem bastava o pirão,
era preciso dizê o certo:
[nós pegamos o peixe, José]

mas eu num era boba nem nada
eu fazia em teimar no assunto torto
porque era uma diferença:
a língua dele, a língua nossa
nós não era igual.
não é. sem os juízos

mas ele passava o corretivo
em cada frase que nós falava
era como uma igreja
onde tinha o certo,
– os categórico, não?

era tudo uma função
de fazer os mandos
quanto mais esses, mais rico
– nunca vi isso

mas na terra é assim, até pela boca
a gente é tomado pelas mandanças.

Agente? Nada, muitas vezes é empedrado mesmo
e hoje vou resolvê que não quero mais

vai pescá o pexe, José.
nós faz a comida na volta
vou agora é prepará as panelasssss
e vou por esses
porque quero a barriga
feito patrão

hoje o Coronel não come
hoje é dia de inversão
e hoje vai se encontrar cartilha
onde meu penso, peso, força
tem também vez

o jornal

ler o jornal
não me acode

não há um só tempo
no olho amargo
destes tipos

e encontro uma prosa
seca nos dentes de quem
articula os fatos

um gosto de já morreu
como se fosse
tudo escuro no amanhecido
e só lhes coubesse
ser Creonte num texto
que só enxerga nadas
e que me cobra caro
a luz e o doce
que faço ver
nos arredores da
minha cidade

ler o jornal
não me acode

porque ali reza a feia
cartilha dos brancos
que nunca souberam
pisar o chão
com medo de enraizar
prazeres na terra fértil
dessa cabeça pátria
misturada que apenas é

porque os diários
são uma coleção de nãos,
gene do arame que
insiste em cercar as ruas
e deitar os campos

ler o jornal
não me acode

porque hoje é um dia
de semear amplos,
e de regar de tempo
gana e suspiro
as direções do agora