e se
eu não sei
onde terminas?
e se
da mulher
continente
te espero
oceano
sem fim
ou começo?
dentre
mil poentes
quero o avesso
do que há
em mim
e se
eu não sei
onde terminas?
e se
da mulher
continente
te espero
oceano
sem fim
ou começo?
dentre
mil poentes
quero o avesso
do que há
em mim

quanto mais te calas
grassa um calo seco.
e ata a tua garganta
quanto mais espaça
mais denso o lastro.
calcária espera de janela
quanto mais te partes
mais descreves arcos.
estreita cabotagem de si
pois se não te podes ir do amor
e jeito não há ao todo querer
peças por júri, mora, apelação
se já não há nada que é certo
já não é nada que saibas.
que te faças onde te perdes
e nisto de ancorar, defeso,
no tempo rabisque barcos
longas redes lançadas a
recolher quintais
de vascos, cabrais, fernãos: nada
nem cabos, naus ou terra nova.
nem amor que vá onde não há
só um compasso de parcos metros
só o impossível desfazer amarras
só o balanço das águas
no baixo do cais
e vertigem de amor
à beira mar
você me dispensou
dizendo que nunca
devia ter sido meu amor
eu, antes só sorte, virei fumaça
meu tempo de graça terminou
e agora onde ando, meu bem
eu só vejo, embaraço, teu desdém
não é justo o veredito do amor
não te troco por ninguém
toda rua onde passo, meu bem
eu vou torto, não disfarço, me convém
não me cabe outro amor, satisfação
sou o rei dos zés-ninguém
você me escutou
cuspindo meu samba
que não mais servia ao teu amor
eu, de quase morte, chamei cachaça
meu livro-de-letras mandingou
e agora onde ando, meu bem
só me vejo, entre abraços, passo bem
é tão torto o veredito do amor
você já não é vintém
toda rua onde passo, meu bem
me amassam, vou aos braços, qual neném
estou cheio de amor, no coração
já não quero mais ninguém

1
a gente é tanto o passado
história recontada de nós
a chuva que lá nos molhou
as mesas que partilhamos
as cartas que escrevemos
quem não mais retornou
2
o tempo sempre tão agora
em dobras que trago de ti
nas valsas que escutamos
o corte que não cicatrizou
todas as noites do mundo
sede fome saudade e café
3
ninguém vai embora de si
não há senão reencontros
o livro que você tanto leu
e os textos que jorram daí
longo arco pra tuas viagens
a portos nunca longe daqui

não quero perder o bonde
que vai me levar de ti
na mesa deixei o fel e o batom
e já me vou a sorrir
das tralhas vai quase nada
só os Tons que mostrei a ti
não quero que ouças sobre o amor
que não soubeste sentir
quero o vestido mais bonito da avenida
e esparramar meu coração
sei que é preciso uma dor de despedida
pra restaurar a ilusão
o carro já vem na esquina
não cabe nem mais senão
deixei sobre o armário a conta de luz
ao lado da solidão
te peço que regue as flores
não tome um não como o fim
se a sorte tocar teu peito, meu bem
verás ainda um jardim
quero o vestido mais bonito da avenida
e esparramar meu coração
sei que é preciso uma dor de despedida
pra restaurar a ilusão
[a letra é minha e a melodia é do querido amigo Cometa]

feras em sulcar a terra
somos bons em túneis.
ases em fazer voragem
cavamos como a nadie.
fossos em poucos dias
poços de longa queda
fendas, cavas ou furos
descemos like nobody
é tão linda a parede de
terra que jaz sobre nós
sombra e frio nos ocos
dos sítios de lama e pó
special prices: toll-free!
neste perau dos povos
vendemos trincheiras
e coutos a quem teme
a treva do mais-de-um
e viramos paz em pás
para te dar a graça de
um abismo privado só
very important person
para que gastar em asas
se te entregamos covas?
fast track para chegares
ao lado avesso da cidade
watch out & vote for us!
make Brazil great again
[o tribunal eleitoral avisa]
[contém 9 doses de ironia]

há papéis sobre a mesa
que eu mesmo escrevi:
tantos planos de curso
gente que desenhei
as perguntas pra tudo
País que atravessei
numa viva matriz…
pincéis
sublinhei em laranja
a palavra amor:
nas letras de itamar
livros de mia e rosa
nas meninas do Vale
que eu mesmo escutei
telas de beira-mar…
azuis
há quarenta e seis dias
faço a casa em sol
linhas tênues borram
sonhos que desenhei
e me faço mais cinza
me começo outra vez
é preciso remar
te chamei
para provar as noites
ser menino ao tempo
vamos brincar lá fora
mergulhar no sereno
e viver só de tons
amor jobim
é dormir nos teus braços
para perder as festas
é quando queres muito
e é quando não pensas
quando vai quando quanda

eu me deixei partir
quando te encontrei
fui a Saturno em transe
por uma hora a mais
o sol se põe em ti
todos os dias são
agoras universos
sede no meu olhar
se quero esquecer
onde o espaço abriu
faço-me Virgem casto
para escapar de ti
mas os anéis são meus
mora um Clown aqui
eu me reviro inteiro
pra retornar a ti
e me deixar partir
quando te encontrar
ir a Saturno em transe
por uma hora a mais

ando inteiro
só quando posso
já não há muito
onde faz nó
meu coração
não leve a mal
nem sempre venho
de tão trocado
já perdi
a direção
se acaso és dona
do mundo
te confesso
me cansei
de ilusão
mas se é sincera
tão nova história
todos já sabem
tens de mim
só devoção
vê, pois, meus olhos
em pedaços
são janelas
onde sou
só intenção
sou passageiro
não quero nada
e vou calado
qual as cinzas
de um vulcão
se acaso és dona
do mundo
nada posso
já não quero
outra ilusão
mas se é sincera
tão nova história
todos já sabem
tens de mim
só devoção

lua em vermelho e
os dias em Calcutá
de esquinas e nãos
volto a beber areia
torna a teia em tez
o nada não tem fim
o tempo come tudo
água se faz em sais
o verde em ilusões
faíscas à beira mar
de fronteiras azuis
e pás de reversões
faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar
de Djavan bebi o a
de Caetano o seu cê
Julinho nem cantou
vai roto um manual
caducas as sessões
e o tempo explodiu
vento veio por fins
longe se pois perto
e o cais se encostou
o medo é que o amor
tão e tanto ancorado
queira partir de mim
faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar