te faço única pergunta
apenas e só a você
poeta ferreira gular,
e aí me interrompo
no abrupto de saber
o que diz essa poesia
o que ela quer
então…
o que existe do outro lado da palavra?
te faço única pergunta
apenas e só a você
poeta ferreira gular,
e aí me interrompo
no abrupto de saber
o que diz essa poesia
o que ela quer
então…
o que existe do outro lado da palavra?
nos tais dos amores
nunca fiz volume de
me evitar
cada um são necessárias
armadilhas que o
tempo nunca desarmou
hora nenhuma pesei a palavra
amor em conta de
tiro atirado
não. tenho os amores no
dever de sombra fresca
na hora a pino da roça
ali é que são todas as
sonolências, gosto ralinho
de acabar o sol.
Mas o amor mesmo, no
oco cavado e seco de
cada garrafa
o amor é mal-jeito no peito
vesgueira súbita no
diário capinar
é o mais vivente de todo
tipo bravio de sagrados
desesperos
o amor é como aviso de morte
do irmão que a gente nem
não conheceu
eu me vesti de palavra
foi pra tua boca me usar
sem o tempo de outro gosto
não fui que não ser cuspido
fui teu grito no quando do amor
o parido que furtado de ares
fui a pedra na tua fala
o pro-inferno que você fez mandar
fui o doce do teu sorriso felino
em tantas horas do teu brincar
fui tua voz transtornada
o calado no torto do teu silêncio
fui tua angústia engasgada
a estreiteza do teu sussurro
e me fui falado, bichinho,
fui teu pedaço na letra do Chico
fui o conto no teu ninar
o balbucio na madrugada
fui a tua palavra encolhida
o segredo nas tuas cirandas
e fui tua coleção de verbos
fui os teus pontos e mas
fiz um novelo na tua língua
pra ser o depois do suspiro
eu me vesti de palavra menina
pra ser pedaço da tua história
uma curva nas tuas páginas
o tanto que alguém vai narrar
é como aquele inteiro ano
infinitas curvas de rodas d’água
fosse um amanhecer de dia santo
faz um silêncio em floração
feito aqueles milagrinhos
no pouco das frestas na calçada
vai existir um outro tempo
um estar na cama, que é a
conta entre culpa, angústia, solidão
o pão conhecido em detalhe novo
um café a tornar-se frio, e os
pés no gelado do ladrilho
a gente tem um querer solto
arisco em ser qualquer coisa
pensa que é água, que é vento
que desdobra em toda orgia
de pensamento: poda o capim,
corta o baralho, proseia a cachaça
vive o sublime do joão-de-barro
no enquanto a gente se basta
é auto em toda coisa pequena.
não nada. não tarda a existência
a tornear no dentro um vasinho
de doença, um zumbido, uma coisa
o tempo entornado é tudo oficina
e o querer sem fronteira o barro
do vaso, a fria matéria-prima
a gente sonha lampejos de paz
e só desadoece quando não existe.
todo dia que acaba é só tratamento
se há graça, está na vigília,
no fardo de terra que se alivia
no tempo-de-aleluia de um enxergar
cada inteiro ano é então pó
pedra-sabão que a hora vai roer.
chão, relevo, sonho e só
a infância é um caminho,
sempre é.
naqueles dias fazia da
colorida capa do edredon
nossa máquina-do-tempo
dali viajamos a todas as terras
de dinossauros: latiam lá fora
enquanto a gente se encolhia
em pânico-gargalhadas
dali evaporamos ao futuro de todos
os carros e gente voadora: lá fora
robôs soldados a latir em ameaça
aquele jardim era uma passagem
cada planta, pedra, bicho
tudo emprestava pra gente o
feitiço de ser outra coisa
canibais por detrás das moitas
ninjas escalando o telhado
a terra que engolia tesouros
areia que matava a fome
tudo como se com vontade
razão e movimento
devo ser
que me explico
pela máquina-do-tempo:
este agora é um futuro
que me abraçou pesado
enquanto carrego
o quem-sabe poder voltar
de quando em quando
penso ouvir o cachorro
misturado a criança, café
e bolo de cenoura
vai ver é que a gente
corre muito
que é pra não estranhar
o mesmo jardim, o sempre
edredon e o susto
de que não vai crescer
sempre vai uma cabeça ingênua
nas longas comitivas da gente.
quando um moleque, boi-de-piranha
a sacrificar em travessia o preciso.
um assum-preto a varar na
cerca os próprios olhos.
uma raposa a roer na
armação a própria pata.
a onça a mastigar filhotes.
Chronos, chavelhudo, a
dilacerar cada cria derradeira,
essa sua tanta condenação.
a dívida não há quem pague.
o poço não há quem seque.
a foice não há quem pare.
a febre não há quem tire.
atire, outra cabeça.
sangra na curva em pirambeira.
perde um pedaço, farto, parto
que é pra cursar, calado,
nova ribanceira.
o mundo, era do tamanho
da rua da minha casa à
escola professora Kazuco Ohara
de tão pequeno, ele era bonito
no campinho fiz meus primeiros gols
e ali experimentei o nascer da inveja:
como jogava bem o tal do Saraiva
de tão bom, a gente tinha medo
cresci em uma descida, e o
desejo era ser o time a atacar para cima
– ainda tento entender o porquê.
de tão torto, meu coração só conheceu enxurrada
naquele dia eu conheci Renata
tinha sorriso bonito e pele
que entendi morena. pouco toquei
de tão longe, evaporou de todas as tardes
foi a primeira, onde tudo ainda é.
ainda vou à escola no depois do almoço
enquanto Renata deixa a rua vazia
do outro lado da palavra existe o quê?
o quando? o quem? o qual?
o sorriso e a angústia do pescador?
as mãos e o pânico do alpinista?
o coração que bate na sua boca?
existe o quê? se
do outro lado da palavra mora um espelho,
imagens do nada
andar vazio
o depois do incêndio.
convém?
***
a palavra não-é.
aqui escrevo sustos
impressos no meu tempo,
enquanto toda idéia é um não-saber
abro buracos em cada sentença
a palavra é minha sentença.
ela pensa, quando pensar é não-ser.
o afundar no poço de cada escolha
por quê não falo?
a palavra é arremedo, imitação, poesia.
é ponte entre mundos que não habito
onde não existo
linha de costura a nos enganar
finge cerzir o pano invisível da existência
na palavra:
sujeitos sem pátria
silêncio e labirinto
na palavra:
hei de também não existir
a menina é o lampejo de uma promessa.
ela nunca entendeu-se
porque seu tempo-em-ser
é sempre não mais que
a sombra de um vôo
do pássaro em fuga
a menina é um tipo de
náufrago que emerge
vez ou outra no batido
oceano de suas fronteiras
ela é o susto na montanha russa
viaja indefinida na máquina-do-tempo
arrancada de seus algarismos.
e vai ao sem-fim…
um quase, em quase
todas as horas. é aquela
que brota fátua no impreciso
tempo das tentativas
notória e pálida certeza
do desejo que haverá amanhã.
ela é sombra? não.
é por isso tudo, bela.
bailarina em existência misturada
à multidão, e seu contorno
perde-se no rosto de
tudo o que vive
viva corrente no leve
e livre manuseio da linha
a cerzir impossível,
desejo e fracasso.
moça-assustada;
não é preciso não.
é isto impossível,
o espacial abismo aos teus pés
a tua virtude
cada laço encontrado
das tuas amarras é
o ninho quando
brilha teu rosto
todo tropeço
um trapésio a te
lançar ao sublime.
cada incerteza e esquina
o decalque, teus dedos
no rosto da tua tribo
você é, porque não.
e toda tua falha
te aproxima
e me aproxima
de mim

a prótese eletrônica
não engana nada
o encantamento
as urnas são velhas
bocas banguelas
em cíclica reinvenção
das coisas das cidades
boca faminta
devoração de desejos
mastigação autofágica
digestão…
digestão…
digestão…
barriga cheia
indigestão
nutrição-sã
intoxicação
excremento
movimento
excremento
tua cabeça alimenta
as ruas e as hienas.
e tu sabes!
então: sujeito ou salsicha?