pausas

Fumaça nos olhos: difícil escrever. É o porquê dos dias de pausa. Mas não se trata de poesia vazia, ou de sujeito calado. Não desisto das letras, tampouco temo errar nas novas regras gramaticais. Não, não. É mais…

A cidade está fria e cinza, mas é só nas aparências. Por aí os dias seguem na efervecência do tudo pode acontecer. São dias de disputas, onde tudo vale voto e projeto. Dias de sobe e desce. Dias da grande crise que temo e desejo. É um tempo de fazer escolhas, como são todos os dias.

Mas sérá que a gente se lembra mesmo que pode escolher? Será que a gente consegue ver diferenças? Que há uns e outros? Que há histórias em jogo? Que há telenovelas e romances disputando nossas cabeças?

Estes são dias para leituras. Tempo para exercitar os olhos em enxergar silêncios e contrários. Quero ver narizes a farejar velhas armadilhas. Eu quero ter um Outubro em homenagem à memória. E te convido a produzir perguntas. Vou começar:

Se a gente chamar uma raposa de bem-te-vi, ela vai parar de roubar galinhas?

torneira do tempo

bobbin-56511_1920

hoje relampeja.
chuva? Nada

a torneira
pingava o tempo
em ladainha

eu nadava as gotas
enquanto
concebia em esperança
um rio de devaneios
e viver em vertigem

sentia na cabeça:
existir é pescar.
importa fome
e desejo
nem sempre se sabe
tanto um, quanto outro
mas hão,
emaranhados

arremesso em tempo de lesma
tatear no caladão das horas
insistir sobre a perda
recolher sabedoria e gosto.
o peixe, no às vezes
dos dias

no barranco
recolho os olhos
aqui era um dia seco.

defeso do azul
enquanto está
cada vez mais
em mim,
que toda
torneira
é um rio
que desistiu

plaza miracle

doze vezes despertei
em lençóis azul-claro
dobram os sinos em mãos
sobre meus cabelos, na
Plaza Miracle del Mocaoret

uma badalada e bebo
a José Marti libertador

outra baladada
aos homens-peixe no leito do rio

outra ao tempo
que adormeçeu na calçada

outra ao vinho
solvente de toda certeza

outra à noite
que desencoraja gente apressada

outra às putas
que semeiam flores na cidade

outra aos tapas
por devorarem a fome

outra aos loucos
a romper gaiolas dentro de mim

outra aos barcos
semeadores das lonjuras do mar

outra ao verão
fogueira ardente sobre nós

outra a estas ruas,
trama de linhas
urbanas com que
costuro poemas

e a décima segunda,
badalada aos
amigos e amores,
porque rabiscam
pelos tampos das mesas
os melhores traços
do meu rosto

madre-angústia: vai-te

velha senhora
conquistado pátio
vapor-de-lágrima
lástima muralha

tuas veias secas
ilhas-de-solidão
fome solar
mastigado homem
vale teu dia
um troço de pão

teu pedaço de
gente é pedra
areia o teu útero
laqueado ao tempo
tu, que aprendes?
nada?
navalhas nas mãos
na amarra
alguma tentação?

velha rolha
ressecada
a tua vida
vinagre vencido
e tuas tripas
ratos-de-tróia
a rasgarem-te
devoram-te
enquanto
devora-me
velha senhora
sentido velho
cloaca

vai-te de mim
feito um
carnaval de insônia
que prepara
rasga apogeu
resiste, mas
engasga
encolhe, morre
em cinza mijada

vai-te velha
bruxa cansada
agora não.
agora eu quero
corro, durmo
falo, disparo
devoro o tempo.
devoto
das noites
valencianas

inventar palavras

gosto de invenção de palavras
plenitudiná-las
no quando quero

fosse assim um
pescador de sentidos
saia pelo mar
em dias claros
anzol sem isca
na persistência…

e vem.
cada palavra bonita

desilusão
vindima
caes
orvalho
silêncio
saudade
produção
invisível
contrário
enxergamento
amargura
amor-a-pinceladas

e vem. Tudo enroscado
tanta coisa
plenitude nonada

e vou.
eu,
pescador de palavras

defeso

barco
com janeiro
mês de azuis
retraiu-se:

fez
defeso do amor

antes, seguia
avanços
predatórios
em redes cheias

amores
desenganados
debatendo-se
em suspiros
finais, agonizantes

agora,
o defeso
encerrava a pesca.
bastaria o tempo
pra renovar
esperanças

até que as redes
voltassem ao mar

e o amor
lhe tomasse
em cardumes
prateados

risco aliterado

via a vida
pelas vitrines

e vislumbrava
vozes nos vidros
vazados

dos olhos
vertia vanessas
em vôos viciados

vacão
velho-vazio
vaso-vazio
tipo-vazio
(des)valido

vértice de si
a vomitar
verdades vãs

vãs, vão, vai
verdades vãs
velho-vulcão
vulcanizado

[Sexta-feira, vila vazia. Pela vitrine, vejo o vigia que namora os carros. No vidro, furta-me um pensamento: onde anda Belaque, o professor? Tanta literatura e poesia em voz vulcânica a ensurdecer meus ouvidos jovens. Alguma coisa ficou. Que ele esteja bem.]

para quintas-feiras

O que setembro aprende com agosto?

seus dias secos moldados em tempo sólido
a agonia do inverno em um cuidado pálido
as poucas tardes caladas a procura de fôlego

o reencontro evitado com fantasmas incômodos
a terapia embutida nos amores recônditos
a incerteza concreta sobre um futuro insólito

a poesia encontrada num momento mecânico
as tantas cartas paradas nas respostas atônitas
o vai-e-vem calejado em tentativas biônicas

o não saber assustado feito em bomba atômica
a luz do sol diluída em noite eterna e intacta
o vir-a-ser enterrado sob uma montanha cármica

as construções permitidas na ascendência esférica