leituras do despejo

estes óculos
já não me
servem mais

já não enxergo,
porque nada posso,
aquilo que reaver

eu aniquilo algo
oblíquo que me sempre
empunhou às faltas

porque só tenho agora
o encontro com a luz
daquilo que perdi

viver pode ser só navegar
distante de onde parti;
e isso é tudo

diário de um torto

a mãe pariu abelhas
e aquilo que nunca
soube voar

viveu os tempos
no mato
a beliscar bichos
e assustar gente

zunia aquela caixa
na sua cabeça
que nunca foi nada
se não um
exército de tempos
a fazerem dó
os seus caminhos
e suas madrugadas

viveu seu corpo
frágil, marcado das
modas de seus ferrões

e passou liso e seco
raspado dos doces
sem nem não
conhecer rainhas

pardal

um pássaro
é um passo
na direção
de Deus

nem que tudo
seja o
sem estradão

os destinos dormirão
no seu canto
sempreando
fantasias
de que viver
é uma ciência
a réguas

mas só sabe
o pássaro
quais segredos
são existir

esse insistir
nos ares
nas dores de
tudo o que se
está a parir

na promessa
do que não se sabe
no cálculo que
nunca fecha
desses quais
areiões em que
tantos pés
soçobraram:

pois garimpa fulano!

mas só sabe o pássaro
que toda certeza
se perde nos
arremedos ninhos
que são nuncas-mais
nisto que qualquer sol
em qualquer intenção
quer batizar destino

um porto a povoar sempre
os sonhos dos homens

enquanto um vôo
cego e arisco
no improviso de
todas as horas
calibra de falta e suspiro
a solidão de quem
tenta saltar

palavra em Andrade

preferia ver de costas
onde fazia um silêncio de gente
e abraçolhar a marola dos
morros que ali jaziam

e todo santo dia rezava
uma cachaça ardida no argumentar
que a vida é um conto
tortelongo demais, sem os capítulos

tao, dizia um verbo coxo:
que de todas as mortes
viver é a que mais trabalho enquer
e só há nela margens de sim e não

do amor descolara a ilusão de sã
“- hoje qualquer boca diz que ama
quando nos altares cupidos
só convive pressa seca em desengano

eu havi naquelas horas de cada
manhã louvada em bom dia; digo:
e a serventia dos vivos era o
apego à palavra que prometia eus

que nada vazio existia nas bocas
e se um corpo pecava aos nós,
era conta de um derrame de
certezas no fogaréu das missões

agora já não pesava a certo
o prumo das suas vontades,
e os óculos eram sempre a
desculpa para não maisver adiantes

ia em abandono do tempo verbal
a sublimar grito em sonolência
e misturava-se nada e tanto na
tormenta diária que nele escrevia

às preferências do tempo
soçobrou o Colombo que houve em si,
para conferir-se em praia onde
uns tantos lhe rabiscavam chãos

e de tanto experimentar-se poeta
nas manhãs de domingo
acordava palavra carla, rima
infinita a vulcanear moços sorrisos

e sempre um caminho, voz:
“viver é sempre uma estrada
atravessada das pedras
que a gente mesmo pariu”

tempos verbais

nunca fui dado
a tempos verbais
minhas impaciências
naquela lista das horas
que jamais não se conhecia
um ontem ia dentro do ontem
tantos futuros pra não nunca ser
um presente em cada porta fechada
e os dias pra perder os pedaços do tempo
que eu esticava louco feito a trama da poesia