dobras

sat
lhe escreveria
palavras azuis

seria apenas para
lhe atiçar sorrisos

e dobraria o tempo
em camadas finas

para me mover
do antes ao agora

de hoje a ontem
sem obstáculos

e seria um satélite
minúsculo flutuante

a orbitar nossa cama
fotografando teu mundo

as cores dos seus sapatos
as marcas do teu rosto

teus olhos apertados
e os teus cabelos brancos

até me perder no tempo
mergulhar em outras dobras

e sempre poder voltar
em todas as direções

lá e aqui, lá e aqui, lá e aqui
para não existir saudade

moscar

wire

os tempos eram
tão confusos
que até o passado
era incerto

onde havia fardas
deram para enxergar copas

onde havia amor
viam hemorragia

tudo preto tudo branco
achincalhando cores
muros, bocas, olhares

cerveja corn
carne de papel

a virtude?
bits outros
gente virtual

sem padres
tudo-podia

reis sem cabeça
nas ruas e prisões

mas havia propaganda
e casais rodopiavam

uns poucos
em salões de cristal

outros tantos
apenas como moscas

num fiozinho de luz
elétrica

outro ano

IMG_4281
na sala nina ergue um castelo
toco em toco esculpindo o seu
enquanto eu corro um dia que
pudesse terminar congelado

de juliana eu ganhei nova edição
do poeta vinicius de moraes
que leio enquanto o pai arranha o violão,
Para viver um grande amor

eu procurava o que escrever
porque havia algo que precisava
falar no topo dos meus anos
mas em contracapas o poeta falara.

Para me calar em Vinicius,
e ser um silêncio da sua voz.

– e com licença e gentileza aos nossos:

“Poética II”

“Com as lágrimas do tempo
e a cal do meu dia
eu fiz o cimento
da minha poesia

E na perspectiva
da vida futura
ergui em carne viva
sua arquitetura

não sei bem se é casa
se é torre ou se é templo
(um templo sem deus…)

mas é grande e clara
pertence ao seu tempo:
– entrai, irmãos meus!”

Vinicius de Moraes

entrai, irmãos meus,
entrai

bem depois

cada segundo é uma curva
eu como chicletes às metades
como meu pai

há fotografias nas quais
se usa uma pele jovem
e lá, faça frio ou calor
faz outra memória
não há buracos-lentes
por onde o hoje enxergar

mas ali estão as curvas
o arco-tempo que não
sai de si, os ecos, os olhos
tudo desabotoado do que
se pretendia fardar destino

como nós
atados e frouxos
laço de duas medidas
plano a parir direções.

é curioso passar os anos
ver que disso, nada se sabia
e o que se entonava em ser
era só um rabisco firme, pronto
de amarrar a qualquer um pau

depois

e isto é o silêncio.

lágrima a
desfazer pedras
um outro jeito
aos olhos,
no de traz das touceiras
a espreitar os
nus e os perigos
de si

é um ocaso
desse jornalão-falso-transparente
que se publica
no esmo da
boca aberta, desgarrada

necessários nãos
a este tempo
de histórias contadas
de tudo
massas de gentes a
se revirar
na esquina, no retrato
no que sempre acham
de qualquer coisa

um silêncio para
encontrar o corpo
as paredes
os copos
a tosse
o amor
e a rigidez
de se saber
inescapável
um só