memórias do dia

o mundo era naquela tarde.

eu mais queria só o abraço
no íntimo nó daquela moça
por detrás da sua tão alta
montanha de intransponíveis

eu pensava haver um rasgo
no pano das tantas certezas
em um filtro dessa querência
o amor habitar o chão possível

eu mastigava tantos suspiros
em tudo que agora eram metades:
a roça arada que não semeei
a cachaça tombada que não bebi

metade da sua boca: amargo
metade de tanto amor: o medo
temi ser o tal lobisomem de
todas as ausência: ser-só-solidão

o mundo era naquela tarde.

mas eu não tinha a rédea da lei
obedecia os termos da profecia
decalcada no ventre da minha mãe,
e cumpri desconhecidos destinos

soprado no tempo do pífano, boneco
eu me preparei vestido em carteiro,
meu querer: as correspondências.
outro mandato que me atravessa

o mundo? o mundo era naquela tarde.

enquanto escolhia lapidar meus destinos
no sempre empedrado tempo do fôlego
que já não sei se é, e posso, existe, tenho.
minha vontade um sendeiro em ásperos

minhas tendências: o coco em supuração
a fruta que deixei no arriscado dos pés
a carne rasgada que não levei ao sol
o apetite da represa que o tempo cercou

falta de tino

nos tais dos amores
nunca fiz volume de
me evitar

cada um são necessárias
armadilhas que o
tempo nunca desarmou

hora nenhuma pesei a palavra
amor em conta de
tiro atirado

não. tenho os amores no
dever de sombra fresca
na hora a pino da roça

ali é que são todas as
sonolências, gosto ralinho
de acabar o sol.

Mas o amor mesmo, no
oco cavado e seco de
cada garrafa

o amor é mal-jeito no peito
vesgueira súbita no
diário capinar

é o mais vivente de todo
tipo bravio de sagrados
desesperos

o amor é como aviso de morte
do irmão que a gente nem
não conheceu

livro dos nós

é como aquele inteiro ano
infinitas curvas de rodas d’água
fosse um amanhecer de dia santo

faz um silêncio em floração
feito aqueles milagrinhos
no pouco das frestas na calçada

vai existir um outro tempo
um estar na cama, que é a
conta entre culpa, angústia, solidão

o pão conhecido em detalhe novo
um café a tornar-se frio, e os
pés no gelado do ladrilho

a gente tem um querer solto
arisco em ser qualquer coisa
pensa que é água, que é vento

que desdobra em toda orgia
de pensamento: poda o capim,
corta o baralho, proseia a cachaça

vive o sublime do joão-de-barro
no enquanto a gente se basta
é auto em toda coisa pequena.

não nada. não tarda a existência
a tornear no dentro um vasinho
de doença, um zumbido, uma coisa

o tempo entornado é tudo oficina
e o querer sem fronteira o barro
do vaso, a fria matéria-prima

a gente sonha lampejos de paz
e só desadoece quando não existe.
todo dia que acaba é só tratamento

se há graça, está na vigília,
no fardo de terra que se alivia
no tempo-de-aleluia de um enxergar

cada inteiro ano é então pó
pedra-sabão que a hora vai roer.
chão, relevo, sonho e só

indagação, mais nada

do outro lado da palavra existe o quê?
o quando? o quem? o qual?

o sorriso e a angústia do pescador?
as mãos e o pânico do alpinista?
o coração que bate na sua boca?

existe o quê? se
do outro lado da palavra mora um espelho,
imagens do nada
andar vazio
o depois do incêndio.
convém?

***

a palavra não-é.

aqui escrevo sustos
impressos no meu tempo,
enquanto toda idéia é um não-saber
abro buracos em cada sentença

a palavra é minha sentença.
ela pensa, quando pensar é não-ser.
o afundar no poço de cada escolha

por quê não falo?
a palavra é arremedo, imitação, poesia.
é ponte entre mundos que não habito
onde não existo

linha de costura a nos enganar
finge cerzir o pano invisível da existência

na palavra:
sujeitos sem pátria
silêncio e labirinto

na palavra:
hei de também não existir

elogio ao encontro

Te encontro nu, feito amantes, feito antes, antes de tudo. Porque quero tua inteireza e a tua compreensão. Pela distância já nos sabemos, e basta. Sobrevivemos em um quase se acostuma. Hoje eu digo não porque é outro tempo que escreveremos juntos. Chove uma segunda-feira em que somos desprovidos de distância. Antes te ouvi, agora quero as tuas partituras; as minhas são tuas. Nossas leituras, onde desatino, onde desafinas, minhas pausas e tua dissonância em outra experimentação. E mais. Do fogo que pensei em nunca haver em mim, lá escondidos todos os meus outros sentidos, coloco-me teu. Da terra, do que não te depreendes, tuas raízes profundas mistérios invioláveis, te quero livre em disposição. E aéreos, inspirados, abraçados sob a luz que inflama olhos e escurece nucas, nos quero meditação, troca, permuta de corações desanestesiados, interessados nas horas. Nos quero água em movimento. Por que aqui sabemos um tempo de ser. A gente promovido do ontem e do amanhã pintores em composição. Lançados em leituras do mundo, a estudar existências no tudo aquilo que ocupa e há. Cada nossa desimportância tensão inimigo desgosto desprezo insônia, cada miséria e cada abundância, as marés, entre estarem e não. Assim me apresento: barato, pronto, voraz de ti. Assim te espero, na maravilha de quando a gente escolhe para onde e de que jeito olhar. Hoje te encontro minha companheira. Porque morrer são planos, e viver é sempre questão de agora.

amor retirante

amor retirante
existência oprimida
ajoelhada e desvalida
ressequida terra
pedaço escarrado e
rejeitado do teu
ser-latifúndio

no medonho
amargado do gosto
o silêncio forçado
amor vigiado
na espreita
do jagunço armado
capitão-do-mato
amor capturado

retirante da fé
pedreira e caminho perdido
desorizontado e tonto
tornado à tapera isolada
porque se há, no onde,
sinal minguado
da chuva chegando

como se o quase fosse
a promessa
em fazer terra nova
nova propriedade
a receber sementes
que não podem
nunca

amor retirante
acariciando os contos
do terço, amor beato
dependurado em novenas
confiado, resistente
a ser amor desenganado

amor empoeirado, deus e diabo
fundamento enforcado
doado e prometido
plantado na fome e na sede
tigela de pouca farinha
raíz arrancada viva
galho seco a deitar ilusões

amor retirante
na cabeça resto d’água
lata sofrida
oco-eterno-vazio
ninho de vento
amor enrrugado
criança envelhecida
embrutecido das horas

amor semeado em terra seca
chão maldito em tantas covas
corpo evaporado e sublimado
queimado do sol
pássaro abatido
amor apagado
nas forquilhas da vida

objeto-amor

tudo o que não tenho é teu.

sejas, onde recuo
farta-te, onde
mínguo esfomeado

vou, para que
tu sejas
sou o que não
sustento e sinto
e calo no que falo

me escondo
para tê-la avanço
quase-estou
quase-ocupo apareço
que é pra te ver erupção

canção que não canto
tensão que não faço
perdão que não ofereço
coleção de nãos
museu vazio
à tua exposição

e calo no que falo
porque é
tua a história
tua trajetória
a me atravessar

camisa-aberta
a exibir teus peitos
teus jeitos no meu encerrar

sou tua noite
o escuro
sou furo
duro e firme
pedregulho
do teu lapidar

um palco
álcool a te extrair princípios
sou princípio e precipício
a projetar teus vôos
e ecoo teu grito
paro, porque te quero alcançar

sou sono, abandono, moldura
sou preparo e disparo
tua projeção

sou o que não sou
sou promessa
peça da tua manipulação

sou isso
teu isso
tua coisa
tua rua
sou teu sou tua
folha calada
tua palavra
teus rabiscos
risco,
sou teu risco
e sigo objeto perdido
caso assunto
matéria negócio
evento mistério

tudo o que tu queres
tua dúvida, tua angústia
tua busca.


teu jamais encontrar