passou

daquele amor que o
demo esculpiu do açúcar
já não engasgo mais

dele, me mudei de estado
enquanto o bicho me tomava
tripas até o embaçar dos olhos

mudei

mudei da idade, mudei do corpo que abrigou o teu, mudei da casa em que te recebi, mudei do carro, do itinerário e da tua direção; enquanto roía, mudei de roupa, sapato e profissão. mudei de música, de livro e de igreja. mudei o dia do supermercado e meu jeito de pedir café. mudei de ângulos e remédios, mudei das dores e da poesia, dos livros que deixei na estante, da revista semanal e do diário da manhã. mudei as páginas da folhinha na parede, mudei das telas e do tannat que nunca nem mais bebi.

enquanto corria, mudei do tempo em que te conheci, mudei daquelas palavras que te falei, mudei da música que compus, das melodias sob o chuveiro, de marca de cerveja, de restaurante e do parmeggiana naquela cantina antiga. mudei de aspecto, de humor e de semblante. mudei de cinema e do programa de televisão. mudei as teorias e o partido, meu jeito de ler Guimarães e o parque que frequentava.

do amor que cuspiu só os pedaços do mastigado de mim, mudei as vozes, as juras, as lágrimas e os gritos daquele impossível; mudei de espera, de esquina, de bairro e da marca de cigarros que nunca fumei. mudei de cama, de armário, das roupas nos cabides, das pizzas que escolhia, mudei a marca do meu perfume e a lembrança que tinha do teu.

mudei o tom, os olhos, o amarelo dos dentes e os gritos nos dias do futebol. mudei o creme de barbear e os destinos das viagens. mudei as perguntas, pra mudar desde o que se chamava lá, até isto que agora me chama aqui. e mudei um bocado, ora aos trancos, ora leito, torto ou certo, mudei dos dias de chuva e das horas ensolaradas que me queimei de ti.

mudei o jeito de tomar fôlego e de pedir perdão, mudei os objetos que colecionava, o correio eletrônico e a marca da cachaça. mudei de estação em estação, até que num dia quente em que já ia alegre, numa quinta-feira de um mês que me esqueci, fui me dar no espelho que eu já nem era eu, aquele um que ia distante então pelas costas. mudei o contrato e os móveis ao meu redor, e foi tanto, e foi tanto, e foi tanto, até que fui me ver aos risos em uma casa nova cheia de flores e discos, para ali poder descansar de tanto tempo de não ser, para ancorar firme e sereno, nada além de um inquilino de mim.

para gostar do tempo

wildflowers-3571119_1920

uma janela
xícara de café
pão quente e manteiga
uma moça lendo revista
bolo de cenoura
partida de futebol
Guimarães Rosa
a sombra de uma árvore
uma longa caminhada
um beijo da mesma moça
memórias de velhos amigos
cozinhar molho de tomate
saudade de viajar
um bebê adormecido no colo
madrugada silenciosa
edredom, Almodóvar, chocolate
melão maduro

estar aqui,
e pensar que ainda é cedo

pois

é, maria,
o amor é assim,
esse rio caudaloso
largo traiçoeiro
rasgo na terra
que um se pensou uma.

é o que há de ser. num só isso.

se há terceira margem,
é o navegado.
onde a gente trança
um querer balançado
lado a lado
no tudo tronco vazado que vai passando.

pra viver é o preciso, nem menos:
braço forte no remo
confiança no traçado
saber nadar quando emborca
e fé de que nenhuma água
larga que seja
se dá em intransponível sem fim.

o amor, maria
vai no assim do tosco. toco.
não está nem no lá nem no cá
mora é no remado meio
que de quase em quase
a gente se deixa alagar

pequenas palavras de amor – 2

e tudo aquilo
que era só
o quase-amor
foi derramar em palavras

aquela brisa
dos confins de
onde a gente
mais silencia,
concluiu em sim
corpo físico palavra

feito um vôo
de borboleta
na decisão de
acomodar-se nos
ares, no repouso
de camas invisíveis
em que só
se destina em sono
quem crê que o
si mesmo
vai onde não se está

feito o tempo
em que cada um
é aquele peixinho
embebido na boca
de quem também
já partiu

os destinos vão
sempre sonhar
com alguém que os
rodeie com o
sorriso de quem
sabe ordenar em desaviso:

todo aviso, pois,
é a gente mesmo
marcado em mandanças

este imperativo
de todo querer
pétreo que
ribanceia
dentro da gente
sempre a
exigir das mãos
o impossível.

quem quer, aliás,
é aquele que
em si, jamais
se conhece

aquele que desmanda
em ato, em cenas de
repetitivas pernadas
corpo a fora
tudo aquilo
que a gente
não
quer
ver

pequenas palavras de amor

porque
uma barriga
pode piscinar
um mar

só na razão que
uma moça
pode artesanar
o tempo

e carregar todo
o será da gente
no escuro do
seu umbigo

(…)

mas quando?
isto tudo
vinha ali,
em tempo-a-tempo,
as mensagens

(…)

todo aviso, pois
é a gente mesmo
marcado em
mandanças

este imperativo
de todo querer
pétreo que
ribanceia
dentro da gente
sempre a
exigir das mãos
o impossível

e é só.
é tudo.

de diadorim

nosso amor veio nascer
nas gerais, nos campos
deitados sob o milagre
das flores de tudo cerrado

veio brotar da boca
amarrada de Riobaldo,
de tanto não dizer,
pra escorrer água
nas quedas do tempo

veio amanhecer nas
janelas dos ares e tinas
realizar as promessas da
boneca namoradeira, e de
toda mulher-mãe que
foi jurar penitências

veio em coragem,
a galopes abrir veredas
no infinito das terras do peito
que, feito em sertão e silêncio
a gente preferiu desalmar
em não se acostumar a pisar

veio em aviso
celeste e cadente,
veio em estouro,
contra-agouro
certeza que nem
não se quis evitar