pardal

um pássaro
é um passo
na direção
de Deus

nem que tudo
seja o
sem estradão

os destinos dormirão
no seu canto
sempreando
fantasias
de que viver
é uma ciência
a réguas

mas só sabe
o pássaro
quais segredos
são existir

esse insistir
nos ares
nas dores de
tudo o que se
está a parir

na promessa
do que não se sabe
no cálculo que
nunca fecha
desses quais
areiões em que
tantos pés
soçobraram:

pois garimpa fulano!

mas só sabe o pássaro
que toda certeza
se perde nos
arremedos ninhos
que são nuncas-mais
nisto que qualquer sol
em qualquer intenção
quer batizar destino

um porto a povoar sempre
os sonhos dos homens

enquanto um vôo
cego e arisco
no improviso de
todas as horas
calibra de falta e suspiro
a solidão de quem
tenta saltar

palavra em Andrade

preferia ver de costas
onde fazia um silêncio de gente
e abraçolhar a marola dos
morros que ali jaziam

e todo santo dia rezava
uma cachaça ardida no argumentar
que a vida é um conto
tortelongo demais, sem os capítulos

tao, dizia um verbo coxo:
que de todas as mortes
viver é a que mais trabalho enquer
e só há nela margens de sim e não

do amor descolara a ilusão de sã
“- hoje qualquer boca diz que ama
quando nos altares cupidos
só convive pressa seca em desengano

eu havi naquelas horas de cada
manhã louvada em bom dia; digo:
e a serventia dos vivos era o
apego à palavra que prometia eus

que nada vazio existia nas bocas
e se um corpo pecava aos nós,
era conta de um derrame de
certezas no fogaréu das missões

agora já não pesava a certo
o prumo das suas vontades,
e os óculos eram sempre a
desculpa para não maisver adiantes

ia em abandono do tempo verbal
a sublimar grito em sonolência
e misturava-se nada e tanto na
tormenta diária que nele escrevia

às preferências do tempo
soçobrou o Colombo que houve em si,
para conferir-se em praia onde
uns tantos lhe rabiscavam chãos

e de tanto experimentar-se poeta
nas manhãs de domingo
acordava palavra carla, rima
infinita a vulcanear moços sorrisos

e sempre um caminho, voz:
“viver é sempre uma estrada
atravessada das pedras
que a gente mesmo pariu”

tempos verbais

nunca fui dado
a tempos verbais
minhas impaciências
naquela lista das horas
que jamais não se conhecia
um ontem ia dentro do ontem
tantos futuros pra não nunca ser
um presente em cada porta fechada
e os dias pra perder os pedaços do tempo
que eu esticava louco feito a trama da poesia

entre olhares raimundos

tu que enxergas tanto
que então, de tanto
esse enxergar tanto
vai acabar no quando
um canto de nada ver

é tanta palavra a
desenhar teus
desesperos

é tanta falsa certeza
a esconder teus
atropelos

é tanta profecia na
boca em que nada há
além do fel de um oco

que este sufoco vai se
embeber de vaidade
fazer de tudo partida
e se lançar às medalhas

que já não são, não.
tu que enxergas tanto
e tanto desenhas nas
telas do mundo
será tu Raimundo
um menino sem rima
um poeta invertido?
seria tu, então,
rapaz sem solução?

Carlos Drumond
e essa pedra opaca
e amarga a te
entupir a visão?

pior é perder-se nas horas
pior é uma dor sem demora
pior é o vasto pasto de agora
em que tu te vês, e eu sei,
essa baba que escorre na boca
esse então sem caprichos
essa lata de leite virada
num onde não se pode ajuntar

se tu te chamaste Raimundo
e esse mundo vasto fosse
também o teu berço
o colo da tua mãe e os
tempos deitados diante do mar?

se tu te chamaste Raimundo
e eu fosse Drumond
e te removesse pedras
e te escrevesse rimas,

então tu,
deste mundo,
não seria arrastado
e seria cuidado,
dormiria abraçado
embalado nos olhos
medrosos das moças

tu?
tu ganharias o mundo
da boca do
teu inimigo
e teria teu riso
tua rima
tua solução

marcas e nomes

em razão de Cristina,
lhe ia decalcado
nas costas
um corpo de
caibro de cruz,
pesado

moça dada a salvamentos
quase esquecida de si
na sublime corrente
das suas esperas,
tinha por certo
vesga fé no milagre
das mãos:
repartia peixe, crescia pão
rasgava silêncios em
rezas grossas a
entonar perguntas

e havia sempre um cristo a tentar:
– nunva vi reza conter questionamento!

já que Cristina,
levava marcas e focos
no dorso dos gestos,
e olhos-mágicos
a lhe vigiar os passos.
seus destinos
eram navalhas surdas,
farta ameaça a
quem possui cobres e arcos

porque Cristina,
tinha o peito um
campo de batalha
a abrigar loucas legiões,
deus e o diabo
em queda-de-braço
putas e freiras
em lutas por
gozo e pão

porque Cristina,
segurava no oco da boca
a sede de todo deserto
garganta que bebeu
aço e gente, livros e pássaros
feito cachaça

e emissária,
peregrina,
fez sorrir madalenas,
despertou gente
em fazer seu leito
templo de vozes
onde acolheu segredos

sendo Cristina,
inclinou-se às bocas
até adormecer desfeita
no fundo de cada rosto
que tocou

sóbria como a lua
fez-se espelho
registro vivo

e partiu num sonho;
porque Cristina,
precisava fazer-se
enigma,
semblante de chances,
que era para nunca
não terminar

decalques

a menina é o lampejo de uma promessa.

ela nunca entendeu-se
porque seu tempo-em-ser
é sempre não mais que
a sombra de um vôo
do pássaro em fuga

a menina é um tipo de
náufrago que emerge
vez ou outra no batido
oceano de suas fronteiras

ela é o susto na montanha russa

viaja indefinida na máquina-do-tempo
arrancada de seus algarismos.
e vai ao sem-fim…

um quase, em quase
todas as horas. é aquela
que brota fátua no impreciso
tempo das tentativas

notória e pálida certeza
do desejo que haverá amanhã.

ela é sombra? não.

é por isso tudo, bela.
bailarina em existência misturada
à multidão, e seu contorno
perde-se no rosto de
tudo o que vive

viva corrente no leve
e livre manuseio da linha
a cerzir impossível,
desejo e fracasso.

moça-assustada;
não é preciso não.

é isto impossível,
o espacial abismo aos teus pés
a tua virtude

cada laço encontrado
das tuas amarras é
o ninho quando
brilha teu rosto

todo tropeço
um trapésio a te
lançar ao sublime.

cada incerteza e esquina
o decalque, teus dedos
no rosto da tua tribo

você é, porque não.

e toda tua falha
te aproxima
e me aproxima
de mim