longe, outro e capa

princesa
usei demais as luvas
que ganhei de ti

e já esqueci
minhas mãos

onde é pano
onde sou
onde és

fiz-me um nó
cola de ti
sombra, talvez

talvez

talvez eu
nem saiba quão
rígido e frio
meu aceno
se fez

deixei de sentir
o trinco da porta
a pele dos pêssegos

deixei de pegar
a água dos olhos
o rosto cansado

um buraco
nas mãos eu sou

e passei a sofrer

de um tipo de
nada
de um tipo de
capa
de um tipo de
longe
de um tipo de
outro

até o tempo
voltar

até me escorrer
dos teus dedos

me socorrer
de ti

matadouro

gralha

mataram Aymberê
mataram mataram
mataram Zumbi
Tiradentes
mataram prenderam mataram

mataram Olga Benario
mataram mataram
mataram Marighella
Vladimir
mataram prenderam mataram

mataram Chico Mendes
mataram mataram
mataram Dorothy
Marielle
mataram prenderam mataram

na enxurrada de sangue
e na erosão dos corpos
a nação-matadouro
perpetua ocos:
ética-oca
santos-ocos
ocas-notícias
justiça-oca
gente-oca

que ontem [e sempre]
nos prenderam compadre!
prenderam
as ruas os pobres
os negros os índios
meninas-meninos-vontades

e um dicionário de brasileiro
– língua tantas, suaaaaaaaave
rosto escuro, corpo samba
bola terra banho maní –
foi dado às traças.

para que minha
filha só fale inglês,
prenderam vozes
política direitos.
prenderam Lula
na terra fria do Paraná

***

mas era outono,
tempo de gralha
semear florestas

e de brisa que não cessa

engrenagens

carna

engoli a esquina
e esqueci o samba
morri em fevereiro

um trio elétrico passou
numa multidão surda
e eu restei em pó(ste)

se é triste partir?
pior é partir
no verão

quando não era pra isso
era pra ser só samba
era pra ser ciranda

mas eu caí; na algazarra
IPVA, IPTU, INTIMAÇÃO
meu peito estilhaçado

e eu, sequer, fantasia
eu não me fazia de herói
só beijos, só onda, só ar

mas meu tempo se escondeu
um pierrô me ocupou
e eu não vou mais brincar

Matilde

matilde

as janelas se fecham nas casas,
Matilde,
se você cospe
um irmão

as luzes se apagam na estrada,
Matilde,
se você atira
pedras num cão

os barcos se vão da praia,
Matilde,
se você tomba
ao pó a devoção

e o mundo se acaba,
Matilde,
no exato oco da sua mão

se o seu olhar
é amargo
se o seu sabor
é salobro
se o seu dizer
é escasso
se o seu estar
é inválido

e os poros colabam,
Matilde,
no convexo abraço seu

se o seu enredo
é pouco
se o arremedo
é largo
se o seu medo
é o passo

pois sem os seus dedos,
Matilde,

– eu preciso a você dizer, Matilde –

nada vai além
vazio é seu bem
você com ninguém

nem nada há,
Matilde,
nonada é
ninho vazio

e você?
ninharia

rebelião

knot
eu não moro mais na dor
eu fui embora de mim
fiz da casa em que me tinha
seu poço de saudades
anzóis na sua mão

e hoje sou tempestade
corro a cidade, nua
sou muitas, sou mil meninas
nenhuma delas, sua

me banhei nos sete mares
em todos os lugares
vivi um grande amor

e venci em novas guerras
marquei na minha terra
a minha direção

e hoje, sou só vontade
como a cidade, crua
sou tanto, sou mil meninas
nenhuma delas, sua

desenhei a minha arte
levei meu estandarte
em meio à multidão

e bebi todas as letras
com tantos argumentos
me fiz oposição

e hoje sou liberdade
tomo cidades, ruas
sou todas, sou mil meninas
nenhuma delas, sua

nunca mais, entre paredes
pensei uma pessoa
fiz disso intenção

e os grilhões de outras tantas
quebrei com nossas tranças
nossa rebelião

e hoje sou de verdade
mais do que sol, sou lua
sou tudo, com mil meninas
nenhuma delas, sua

teorema

lights

quem não se cura
com o tempo,
não vai despertar

quem não levanta
na queda
não vai mais voar

quem não comprende
o corpo
na palma da mão

quem não conhece
o gosto
do céu e do chão

não poderá
não poderá

quem foi ao mar
e voltou
depois de um furacão

quem conheceu
o silêncio
e a lei do cão

quem foi além
do que lhe ordenou
o patrão

quem se fez forte
mistura
Pará e Sertão

renascerá
renascerá

quem não se escuta
a ninguém
saberá escutar

quem não se perde
na estrada
não vai se encontrar

quem não desiste
do curso
não pode aprumar

quem não se enrola
ao mundo
não conhecerá

nem saberá
nem saberá

quem não se faz
um problema
não tem solução

quem não se mede
nas ruas
não tem direção

quem não se baila
sozinho
não vai cirandar

quem não se quebra
em pedaços
não pode amar

nem partirá
nem partirá

voto

dandelion-2295441_960_720

que te amem
intensamente
para que te sintas [bem]

que te beijem
lentamente
para que te proves [doce]

que te elogiem
frequentemente
para que te saibas [bom]

que te olhem
curiosamente
para que te penses [nu]

que te critiquem
esporadicamente
para que te vejas [gente]

que te machuquem
pontualmente
para que te cures [forte]

que te paguem
corretamente
para que te dês [valor]

que te impliquem
politicamente
para que te vás [autor]

e que te acolham
e te ampliem
e te diluam
no tempo
no povo
na rua
no eu

e te imprimam
mãos coloridas
abadás, santos
letras e gêneros

para que tu sejas mil
pedaço da multidão
dona da cidade
[pés e poder]

num feixe de gente em riste
viva e desejante
de um tempo de todos

vulto

vulto

algo te escreve

imprecisa mão
que não vês
– e não podes –

texto dentro
do outro
a te fazer
de efeitos

tu és
um feixe
um gosto
um lapso
um parto

ou apenas
estação

onde
desembarcam
vozes
vultos
vontades

tu és um quase
um quando
um tipo
um só
um

e tão
pouco
sabes

quase
nada
escolhes

entre ir
ou não
vives
de apostas

és um
risco
de si

 

lição de física a minha filha

board

não me caiu
maçã na cabeça
mas conheci a
Gravidade do amor
aos trinta e oito anos

tornou-se lei

mudei o preciso
de um seno
por um
manente senão
e curvei o
ângulo de enxergar

mudou o cálculo
para o que
era um
fazer-se
linha e borrão

amor + amor
e um pai
se fazer dois
antes e depois
de ti

as verdades
pedaço e
clarão
deram
linha de fuga
a um antes
em plasma

e reinventei
tempos
cantigas
cirandas

o ponto
virou vértice
e de quadrado
me vi raiz
um tanto
mais funda
um pouco mais

pai-ciência
pai-lhaço
pai-xão
paí-ó

pra
te pegar no colo
ser teu guardião
tua afirmação
diversão
conta

e dilatar o tempo
esperando
operando
silenciando

até me tornar
só fórmula
uma lembrança
de mim

tu = [eux + só(teu)] / mundo

e te deixar um x
pra dele se fazer 0
e eu apenas 1
mais um
dos teus

prece

concrete

contraiu cimento

polvo opaco

que lhe

chumbou ventas

e por ques

 

andou a prumo

tartarugado

e fez de

seu amor um

adro (árido)

 

estacou a casa

arrimou a dor

e rejuntou as

frestas de luz

meticulosamente

 

e como pouco

 

armou um muro

que escondeu cada

verbo-de-liga

 

e fez a

cadeados

sua intenção

 

o rosto

caiado fez

descaso

do sono

do mundo

 

e ainda pouco

 

embotado

evoluiu a piche

até tornar-se

asfalto de si

 

e sob pressas

descansou