quando conversa

quem vai entender
o surdo de tantas horas?

quem vai entender
o caladão daquelas festas?

quem vai entender
o tácito daqueles dias?

quem vai entender
o vazio entre tanta prosa?

quem vai entender
o nada daqueles gritos?

quem vai? porque é
precioso e preciso.

tanto difícil que é
essa pouca coisa,
a palavra

a fazer um agrado
nos escondidos
desenterrar
angústias
desnaufragar
desertos
cultivar
sentidos
revelar
os sujeitos
paridos de
cada dia
e tudo o que
eles já mais
não são

só uma
conversinha
a toa
na tolice da
sintonia
diária

coisa que não
talvez, não,
nunca se
soube andar
muito bem

quando agora

pra percorrer
um tempo de
estranhos fados
e descobrir que
não há nada
amor nenhum
além do que se
pode ver nos
cantinhos de
cada dia
na escuta de
cada tempo
no olhar em
cada gesto

e que
não há nada
amor nenhum
além do obséquio,
do cuidado e do zelo
do espírito entregue
em cada ato
bobo, bobo,
tão bobo
de um em outro:

um e outro,
a prestar atenção

pausas

até quando houver razões
segue calada a moça-mão
das poesias

porque as leituras não
são a desembestar
madrugadas

porque cada oco é pra
ser vivido nos seus
próprios silêncios.

o que hoje fala é a rés
dos dias que estão
por figurar

e isto é para cada um
peão perdido neste
xadrez tabuleiro

essas veredas rudes
guardam também o
tempo da florada

difícil é acreditar nas
marcas disso que é
um termo

será o arremate de
toda obra que não
se viu fazer?

sina nas rochas pedras
do peito a segar o tanto
que havia em viver?

melhor calar.
os olhos
calhar

todo setembro

meu pensamento
é estado de poesia

desorganizo, logo existo.
metaforizo, lento insisto.

tenho rabiscos
entre minhocas
e coçeiras em
fazê-los vivos

minha pele é
o longo campo
de cantos,
jazida semântica
a jorrar
nós-de-garganta,
desesquecimentos

só sei de mim
em transpirar palavras:

sou
as minhas sentenças

marcas e nomes

em razão de Cristina,
lhe ia decalcado
nas costas
um corpo de
caibro de cruz,
pesado

moça dada a salvamentos
quase esquecida de si
na sublime corrente
das suas esperas,
tinha por certo
vesga fé no milagre
das mãos:
repartia peixe, crescia pão
rasgava silêncios em
rezas grossas a
entonar perguntas

e havia sempre um cristo a tentar:
– nunva vi reza conter questionamento!

já que Cristina,
levava marcas e focos
no dorso dos gestos,
e olhos-mágicos
a lhe vigiar os passos.
seus destinos
eram navalhas surdas,
farta ameaça a
quem possui cobres e arcos

porque Cristina,
tinha o peito um
campo de batalha
a abrigar loucas legiões,
deus e o diabo
em queda-de-braço
putas e freiras
em lutas por
gozo e pão

porque Cristina,
segurava no oco da boca
a sede de todo deserto
garganta que bebeu
aço e gente, livros e pássaros
feito cachaça

e emissária,
peregrina,
fez sorrir madalenas,
despertou gente
em fazer seu leito
templo de vozes
onde acolheu segredos

sendo Cristina,
inclinou-se às bocas
até adormecer desfeita
no fundo de cada rosto
que tocou

sóbria como a lua
fez-se espelho
registro vivo

e partiu num sonho;
porque Cristina,
precisava fazer-se
enigma,
semblante de chances,
que era para nunca
não terminar

um quarto

o quarto tinha uma cama:
era a placa onde
se escreveu amor

e se escreveu silêncio
medo-de-chuva
preguiça de amanhã
vontade de fazer-se
palavra magica
pir-lim-pim-pim
e ser invisível
invencível
impossível

o quarto tinha
um sol e uma lua
desaparecidos
no esconde-esconde
que nunca se acabou
[nem nunca vai]

o quarto tinha os
livros que já
não eram livros
a lua de mel
que não vingou

e fotografias
mais parecidas
a nuvens ligeiras
que o vento soprou

a frase que se perdeu
a historia que virou pó
o filme mudo
e calado
que ninguém revelou

o quarto tinha
também um moço cansado
usado por seus
esquecimentos
calejado em já
não dizer – torto dos sentidos
coxo dos desejos

um pai acovardado
machucado na
pele dos seus olhos,
em um coração mudo

aquele era um
quarto, era metade
era a beirada,

tudo, só a beirada
do que se espera
nesga do que se quer

e no canto
do quarto
uma moça como vulto
mobília e veste
esquecida

que já não
combinava
ali

tzipi

tzipi
tzipi,
o teu nome não me significa, mas me assusta.
soa como exército perfilado no pátio
mãe ajoelhada no túmulo do filho perdido
um amor que se vendeu por nadas.
fiz um jogo com o teu nome
um tabuleiro de sentidos que agora
tu usas para riscar tua imagem no espelho:
[muro guerra triste peste
podre arma tiro morte
medo grito lixo cego
nada nunca nó não]
tu podes também fazer um quebra-cabeças
entre as chamas que consomem o corpo
das crianças fazer aí o seu dizer:
porque teu Estado tem as mãos de pedra?
quando arrebentas um sorriso qual é o gosto na tua boca?
usa também teu tabuleiro Tzipi
porque penso que temo por ti.
tu és uma moça esquecida
num beco escuro da tua alma.
enquanto ela vai assustada
tu vais assustando, talvez,
que é pra garantir desencontros.
mas, onde tu vais assim?
onde tu vais?

sons emprestados

essa poesia é som.
e só.
rito de emprestar
máscaras a esses avessos
de tanto barulho,
é a obra-de-bico
néscio ato de remendar o
Tao no meu peito
em papéis

nenhuma palavra basta
meu canto é a nesga
do que eclode nesse
Isso que tanto
me atravessa

fardo e deleite diários.
opero no meu texto
a rotulagem do infinito
mar de dejetos-desejos
que tomba destes interiores,
linha-de-produção sem
interlúdio, sirene, parada

suspiro em tentativas
de traduzir angustias
mas as palavras são
sempre fotos tremidas
tímidas cartas
edemas sem lastro
anátemas das
Reais sensações

memórias do dia

o mundo era naquela tarde.

eu mais queria só o abraço
no íntimo nó daquela moça
por detrás da sua tão alta
montanha de intransponíveis

eu pensava haver um rasgo
no pano das tantas certezas
em um filtro dessa querência
o amor habitar o chão possível

eu mastigava tantos suspiros
em tudo que agora eram metades:
a roça arada que não semeei
a cachaça tombada que não bebi

metade da sua boca: amargo
metade de tanto amor: o medo
temi ser o tal lobisomem de
todas as ausência: ser-só-solidão

o mundo era naquela tarde.

mas eu não tinha a rédea da lei
obedecia os termos da profecia
decalcada no ventre da minha mãe,
e cumpri desconhecidos destinos

soprado no tempo do pífano, boneco
eu me preparei vestido em carteiro,
meu querer: as correspondências.
outro mandato que me atravessa

o mundo? o mundo era naquela tarde.

enquanto escolhia lapidar meus destinos
no sempre empedrado tempo do fôlego
que já não sei se é, e posso, existe, tenho.
minha vontade um sendeiro em ásperos

minhas tendências: o coco em supuração
a fruta que deixei no arriscado dos pés
a carne rasgada que não levei ao sol
o apetite da represa que o tempo cercou

mudanças

azeitona
sempre gostei
de caroço de azeitona

ali dentro, depois
do árduo violar

pensava devorar segredos
o tutano daquele bicho

sempre quis ver o que ia
no dentro de todas as coisas.

até que me apareceram
com azeitonas sem caroço

queriam que o mundo
perdesse os mistérios

e aquela azeitona fria, oca
um estádio vazio, já viu?

pois insisti. fui atrás de outros
jeitos de aprender o mundo

sempre acreditei que viver
é questão de provar caroços