rosa

roseni
não esqueci Rosa
rabisco aguçado
do raso querer
e do tanto saber
deste ó-em-pó, povo

nem desfisguei-a
ou a desli, no fundo
de meus raros juízos

não esqueci Rosa
palavra-de-costura
em todo vão e rasgo
onde se aninha a
política deste uai
jeitão-de-gente

nem o apaguei,
ou encabrunhei meu
gosto em filosofá-lo

não esqueci Rosa
passarão-de-grito
carta de esgarçar
segredos que a gente
só escondeu de si

nem acomodei-a
ou dependurei seu gosto
feito réstia do que já passei

não esqueci Rosa
dona de rasgar picadas
por onde todo macho
já havia deitado um fracasso
em cachaça de esquecimento

nem eu o encerrei, ou
prateleirei o guizo do
bicho que os nós acorda

não esqueci Rosa
esse corpo de dizer anzóis
e enganchar todo furto
da prontidão que o peão
merece pra não arriar

nem eu a perdi, ou
a verti num último gole
da água que chorei acabar

nem não deixei poeiras
enganarem os tempos
no que destilamos ordens

nem me fiz inquieto
nem me mordi de incômodos
nem me passei de Minas

não apaguei
não desmedi
não desliguei
nem devolvi
os fardos lautos
de sabidos destinos

não, nem nada, nonada,
eu ancorei aqui.
nem Guimarães partiu
nem me esqueci Roseni

muerte

se cambió la muerte,
de un vaso roto
a un tipo oscuro de piel

que la use, así, como nada
en cada noche muda
desde que tomaste
el barco de luces
que te partió de mi.

se cambió la muerte,
en un ocaso de mi cuerpo opaco
memoria olvidada de su risa
en un corazón sin sonido y ritmo

que no tuve entonces como
una mano a remar mi sangre
pero si un camión-mezclador
a tornarme hierra
sombra de existencia.

poes sí, se cambió la muerte.
De un lejano destino de los hombres
en mí compañera de desayuno
– vacíos ojos rojos,
a preguntarme porque vivía

segunda-feira

eu vivi numa
segunda-feira
quando o vampiro
do tempo
permiti atravessar
de um cheiro de
coisa esquecida

aí desfiz as
trouchas de pedras
que pesavam meu peito,
e irmanei o vôo arisco
e sem-lá dos bem-te-vis

eu vivi em tempo
naquele dia qualquer
quando fiz
saber que meus versos
são inquilinos de mim

aí eu desenhei
espaços e colori em
verde, vermelho e será
os destinos que n’outro
dia ainda escarrava o
senhorio que não conhecia

eu vivi num
sopro breve
daquela firme estação
de um ano que
escolheu por não
mais ter fim

aí eu desfiz as
malas dos fios já
grisalhos da barba
que teima me
acompanhar no ermo
renovado do meu corpo

e vivi num som
acelerado de outra
vida que se fez chegar

no arco de uma dor
que não fez mais curva
a culminar encontros

e nas caixas que esvaziei

tudo porque era
segunda-feira no quadro
azul da minha janela,
e porque nela,
eu resolvi morar

desajuizado

[um samba que me saiu pelas frestas]

ela não pensa quanta loucura
mora no seu coração
desvanece em madrugadas
quando sem palavras
silencia seu verão

eu me embriago então
pelas esquinas, malabares, multidão
me esparramo nas calçadas
torto e resolvido, grito em voz de batalhão

não quero mais ciranda, simplesmente
cansei de entorpecer meu coração
eu fico aqui calado e de repente
o amor vai me esquecer na solidão

ela se perde então
em labirintos pulsa o seu coração
da janela escancarada
grita o meu nome e se lança à procissão

eu desconjuro irmão
porque o desejo volta feito furacão
na avenida eu disparo
desajuizado, abraçado à ilusão

não quero mais ciranda, simplesmente
cansei de entorpecer meu coração
eu fico aqui calado e de repente
o amor vai me esquecer na solidão

doze

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

então míngua a sesmaria
que sobrevivia aos laços
em uma maré sem defesos
sempre a vazar destinos seus

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

isso que bebe toda firmeza
do quanto que houve rocha
a segredar em espumas, que o vivo
só vai no incerto do que está para

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a polir a pedra de Sísifo
e diluir as encostas
para fazer um sol na insistência
flutuante tempo a fabricar sabores

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

no novo verso desta boca
sempre velha moça desconhecida
a assoprar atalhos náufragos
desta carta que se navega a sós

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

o leito revolto e lúcido
feito a aposentar fantasias
isto tudo, sublime existência
a me ver horizonte-contrário

amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

a casta que esparrama um traço
cada escolha sã que nem não conheci
o barro que me cuspiu bicho
as mãos do povo que concebeu

Amanhã, nó-dia, gente senhores
está a trigésima sétima onda
que torna a devolver o mar

água que bebe a terra que ergui
sempre que encerra o tempo que tive
canto que abraça o grito que dei
e este que vem naquilo que fui

sobre o

escrevo a tapas
foice a descer
palavras

[dirrisso
coiceio
esperneio]

a lápis grosso
quebra-pedras
na minha boca

[descalo
arregaço
chumbo]

porque os silêncios
são os olhos
da gente
quando há medo
no enxergar

[galopo
espanto
escarro]

que é a desarrolhar
o estradão dos poemas