opa cidade

os prédios ameaçam Deus
enquanto flores
despencam em janelas cerradas

toda torre arde
como setembro
e a cidade, finalmente,
inten-cidade
cumpre-se
em rios metálicos açoreados
e destina-se em
crepúsculos cinza
futuriza-se em árvores plásticas
gente pálida
em turbilhonada existência

cidade-angústia, cidade-máquina, seca cidade
analcidade feita em desejo estético
corpo invadido
cisão política.

a pólis reinventa éticas
mastiga meus ouvidos quando
cospe palavrões em muros pichados
gente espalhada
em tanta periférica existência
tanta concentração: opacidade

minha cidade é susto
e ameaça
humana ratoeira a esconder
sorrisos tímidos
gente roída se debate
onde não há mais
nada

tudo é terra ocupada
tempo ocupado
em cabeças sem teto, sem terra, sem tento e ternura

a cidade são buracos
correria, grito, porrada
enxurrada e capital
invencível cidade
sob avermelhado céu
taquicárdicas tentativas
em fabricar sentidos
no todo dia

defeso

barco
com janeiro
mês de azuis
retraiu-se:

fez
defeso do amor

antes, seguia
avanços
predatórios
em redes cheias

amores
desenganados
debatendo-se
em suspiros
finais, agonizantes

agora,
o defeso
encerrava a pesca.
bastaria o tempo
pra renovar
esperanças

até que as redes
voltassem ao mar

e o amor
lhe tomasse
em cardumes
prateados

dos mundanças

do fiapo
d’água,
arroio
de essências,
daquilo
que vim

no agora,
escandaliza
um rio

bom
perder o
horizonte,
ver o
sem fim
de cada
corrente,
cada veio
d’água
vistoso,
infinito
quente e frio

pensava remar.
que nada!
a vida
é questão de
ser-peixe.
infiltrado
d’água
nas guelras
seguir
misturado

enredado
de si, das
moças e botos
praia e tocos
todas histórias

misturado
mergulhado
no sem fim

e fazer-se
sempre
chegando…

terra queimada

bocais
o sentido se foi
se foi o estado
agora pássaro calvo
e o país
partiu-se
feito pau arremessado
ao fogo
espirrando tons
áridos, ácidos – hálitos

desexistência e morte
a alimentar
toda fogueira urbana

a moça partiu calada
no também de tanto verde
que restou em
galho seco
resto de toco
terra, terra, terra
desgoverno do fogo
estalo e uivo
angustiado

sublimação

venho de lá

convido a
viver o vivo,
este transitório
estado
de quase

a mover-se entre
quandos e
sustentar
o que “está para”…

ser o que
reticencia
toda sentença

a palavra é
nada – impressão
estalo e tentativa.

para haver,
é o que já foi
foi o que já não é
sempre um-talvez

sublimação do sabido,
o instituído
fagocitado em perguntas

um é,
de si inseguro,
desapegado
dos laços
desavisado
das pedras
coisa esquecida
sem rosto
e território,
partida

quer ser
aquilo
o que
não se é

e existir
naquele que
não se pensa

ser
aquele que é.

e
o que é, já foi

cerrado

cerrado
terra
em milagre,
desenganada.

hoje,
assentado
em mim,
conheço o cerrado
do impossível.

na picada
rachada
a gritos –
verdades
retorcidas
em galhos
hirtos, mato.

um campo
sem sombras
esconderijos?

tudo
é sem parada:
revoada
florada
corredeira
pó.

o cerrado é
enquanto
recolho
pedras.

peças
no pra-sempre
desses todos
quebra-cabeças

para sábados

viver tempo de novena
sagrada quarentena
– entre –
em mim.

eu, procissão.

vão?
idéias carpideiras
ladainha perene
andor carregado
figura tombada
esculpida em pedra
desgastada
repartida.

vão?
ao cimo daquele morro
– antes –
serpenteia paciente
come as ladeiras
o asfalto falho
recortado

lá desata e oferece
prece apressada
inicia nova caminhada