horas

parado. parado. paradas
as horas
no relógio cansado
esquecido,
como já
pouco importam as horas

ponteiros cansados carregam
o fardo, movimentar
o tempo parado
impresso em círculos
na parede, em
luzes intermitentes.
Cansados, porque já
pouco importam as horas

horas
as horas arquivadas
relógios apontadores
dos destinos de cada recorte
que não vale,
porque a vertigem da escolha
já abandonou as horas

tic, tac, tic, tac, tic, tac
é, não é, sim, não, certo, errado, desarrumado, pronto,
tic, tac, tic, tac, tic, tac…

segue um relógio de inconsistências
espaço vazio e busca.
um relógico ocupado de mim
dos segundos arrastados, eternizados
espera: tic, tac, tic, tac, tic, tac…
haveria ali um espelho a devolver minha outra metade

agora perdida, agora esquecida, distante
consumida nas chamas de si, nos seus próprios ponteiros

ponteiros parados
tempo, tempo, tempo
até ensurdecer despertado
inevitável destino da escolha já feita
tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac
fim do tempo de espera

opa cidade

os prédios ameaçam Deus
enquanto flores
despencam em janelas cerradas

toda torre arde
como setembro
e a cidade, finalmente,
inten-cidade
cumpre-se
em rios metálicos açoreados
e destina-se em
crepúsculos cinza
futuriza-se em árvores plásticas
gente pálida
em turbilhonada existência

cidade-angústia, cidade-máquina, seca cidade
analcidade feita em desejo estético
corpo invadido
cisão política.

a pólis reinventa éticas
mastiga meus ouvidos quando
cospe palavrões em muros pichados
gente espalhada
em tanta periférica existência
tanta concentração: opacidade

minha cidade é susto
e ameaça
humana ratoeira a esconder
sorrisos tímidos
gente roída se debate
onde não há mais
nada

tudo é terra ocupada
tempo ocupado
em cabeças sem teto, sem terra, sem tento e ternura

a cidade são buracos
correria, grito, porrada
enxurrada e capital
invencível cidade
sob avermelhado céu
taquicárdicas tentativas
em fabricar sentidos
no todo dia

defeso

barco
com janeiro
mês de azuis
retraiu-se:

fez
defeso do amor

antes, seguia
avanços
predatórios
em redes cheias

amores
desenganados
debatendo-se
em suspiros
finais, agonizantes

agora,
o defeso
encerrava a pesca.
bastaria o tempo
pra renovar
esperanças

até que as redes
voltassem ao mar

e o amor
lhe tomasse
em cardumes
prateados

dos mundanças

do fiapo
d’água,
arroio
de essências,
daquilo
que vim

no agora,
escandaliza
um rio

bom
perder o
horizonte,
ver o
sem fim
de cada
corrente,
cada veio
d’água
vistoso,
infinito
quente e frio

pensava remar.
que nada!
a vida
é questão de
ser-peixe.
infiltrado
d’água
nas guelras
seguir
misturado

enredado
de si, das
moças e botos
praia e tocos
todas histórias

misturado
mergulhado
no sem fim

e fazer-se
sempre
chegando…

terra queimada

bocais
o sentido se foi
se foi o estado
agora pássaro calvo
e o país
partiu-se
feito pau arremessado
ao fogo
espirrando tons
áridos, ácidos – hálitos

desexistência e morte
a alimentar
toda fogueira urbana

a moça partiu calada
no também de tanto verde
que restou em
galho seco
resto de toco
terra, terra, terra
desgoverno do fogo
estalo e uivo
angustiado

sublimação

venho de lá

convido a
viver o vivo,
este transitório
estado
de quase

a mover-se entre
quandos e
sustentar
o que “está para”…

ser o que
reticencia
toda sentença

a palavra é
nada – impressão
estalo e tentativa.

para haver,
é o que já foi
foi o que já não é
sempre um-talvez

sublimação do sabido,
o instituído
fagocitado em perguntas

um é,
de si inseguro,
desapegado
dos laços
desavisado
das pedras
coisa esquecida
sem rosto
e território,
partida

quer ser
aquilo
o que
não se é

e existir
naquele que
não se pensa

ser
aquele que é.

e
o que é, já foi

risco aliterado

via a vida
pelas vitrines

e vislumbrava
vozes nos vidros
vazados

dos olhos
vertia vanessas
em vôos viciados

vacão
velho-vazio
vaso-vazio
tipo-vazio
(des)valido

vértice de si
a vomitar
verdades vãs

vãs, vão, vai
verdades vãs
velho-vulcão
vulcanizado

[Sexta-feira, vila vazia. Pela vitrine, vejo o vigia que namora os carros. No vidro, furta-me um pensamento: onde anda Belaque, o professor? Tanta literatura e poesia em voz vulcânica a ensurdecer meus ouvidos jovens. Alguma coisa ficou. Que ele esteja bem.]

cerrado

cerrado
terra
em milagre,
desenganada.

hoje,
assentado
em mim,
conheço o cerrado
do impossível.

na picada
rachada
a gritos –
verdades
retorcidas
em galhos
hirtos, mato.

um campo
sem sombras
esconderijos?

tudo
é sem parada:
revoada
florada
corredeira
pó.

o cerrado é
enquanto
recolho
pedras.

peças
no pra-sempre
desses todos
quebra-cabeças