decalques

a menina é o lampejo de uma promessa.

ela nunca entendeu-se
porque seu tempo-em-ser
é sempre não mais que
a sombra de um vôo
do pássaro em fuga

a menina é um tipo de
náufrago que emerge
vez ou outra no batido
oceano de suas fronteiras

ela é o susto na montanha russa

viaja indefinida na máquina-do-tempo
arrancada de seus algarismos.
e vai ao sem-fim…

um quase, em quase
todas as horas. é aquela
que brota fátua no impreciso
tempo das tentativas

notória e pálida certeza
do desejo que haverá amanhã.

ela é sombra? não.

é por isso tudo, bela.
bailarina em existência misturada
à multidão, e seu contorno
perde-se no rosto de
tudo o que vive

viva corrente no leve
e livre manuseio da linha
a cerzir impossível,
desejo e fracasso.

moça-assustada;
não é preciso não.

é isto impossível,
o espacial abismo aos teus pés
a tua virtude

cada laço encontrado
das tuas amarras é
o ninho quando
brilha teu rosto

todo tropeço
um trapésio a te
lançar ao sublime.

cada incerteza e esquina
o decalque, teus dedos
no rosto da tua tribo

você é, porque não.

e toda tua falha
te aproxima
e me aproxima
de mim

contenda

urna
a prótese eletrônica
não engana nada
o encantamento

as urnas são velhas
bocas banguelas
em cíclica reinvenção
das coisas das cidades

boca faminta
devoração de desejos
mastigação autofágica
digestão…
digestão…
digestão…

barriga cheia
indigestão
nutrição-sã
intoxicação
excremento
movimento
excremento

tua cabeça alimenta
as ruas e as hienas.
e tu sabes!

então: sujeito ou salsicha?

resistências

a porta é fechada.
e em toda palavra
mora um quarto escuro

o pouco das falas
não é que é a gente
mesmo. Não moça.

o silêncio é a
barriga grávida
dos nossos destinos

é um menino que
vai beber da luz e
desenganar da solidão

como em toda novena,
cada conta é um pedregulho
na aragem das mãos

cada palavra uma conta
um calo no dorso do tempo,
Parrão a me cobrar.

[madrugada na roça. escuta o eco que faz]

o silêncio é um jeito
arisco de não estar
na mira das vozes

a palavra parada
tem os olhos fechados
no esconderijo de si

e o pior cego?
aquele que tem
medo de ver

porquê o querer é
só uma bala atirada.
é sem importância.

quem manda mesmo
são outros macacos,
outras resistências

pausas

Fumaça nos olhos: difícil escrever. É o porquê dos dias de pausa. Mas não se trata de poesia vazia, ou de sujeito calado. Não desisto das letras, tampouco temo errar nas novas regras gramaticais. Não, não. É mais…

A cidade está fria e cinza, mas é só nas aparências. Por aí os dias seguem na efervecência do tudo pode acontecer. São dias de disputas, onde tudo vale voto e projeto. Dias de sobe e desce. Dias da grande crise que temo e desejo. É um tempo de fazer escolhas, como são todos os dias.

Mas sérá que a gente se lembra mesmo que pode escolher? Será que a gente consegue ver diferenças? Que há uns e outros? Que há histórias em jogo? Que há telenovelas e romances disputando nossas cabeças?

Estes são dias para leituras. Tempo para exercitar os olhos em enxergar silêncios e contrários. Quero ver narizes a farejar velhas armadilhas. Eu quero ter um Outubro em homenagem à memória. E te convido a produzir perguntas. Vou começar:

Se a gente chamar uma raposa de bem-te-vi, ela vai parar de roubar galinhas?

linha de passe

lei
São Paulo são esses vultos
uma porção de gente
espremida em silêncios:
a cidade está em guerra!

os manos são esquinas vazias
encruzilhadas bélicas
em eterno não ter por onde…

enquanto você goza,
covarde, canalha, finge –
você não pode ver.
enquanto compra asfalto,
limpeza, pontes, médicos de faz-de-conta,
giram metralhadoras a cuspir
palavras, porradas e pedidos

as minas explodem pisoteadas
nos corredores da linguagem fálica
– são apenas pedaços de carne
a abastecer cozinhas, latrinas
e motéis baratos; não são mulheres.
são artefatos soterrados, risco necessário

e a cidade cospe fogo
na sua constipação diária, paranóica.
veias arregaladas,
a cidade cheira e fuma
em nóia agonizante.
usa túneis para esconder rostos
e um silêncio mecânico
– olímpico –
no êxtase das linhas de produção

a cidade não existe!
São Paulo é um
continente em disputa.
campo de batalha que
arrebentou são jorges,
são bentos, são lucas…
sé-fé-roubo.

a cidade é um discurso ao avesso:
espaços, buracos, afastamento,
a cidade é salto-à-distância

São Paulo. São Paulo?
São Paulo é não compreender.
São Paulo é nossa Grande Falha
São Paulo não é uma cidade.
São Paulo é pergunta permanente,
ameaçadora.

ensaio sobre setembro – 3

o tempo não tem cabeça
nos ocupa e encarna
que é para saber pensar

será que a gente é o sonho do tempo?

lembro um filme que não assisti.
o homem era um delírio
era um homem sonhado
um tipo de sombra
amarrada a outra
existência – indisvencilhável.
pode uma sombra existir sem coisa?

o tempo sonhava o homem
a coisa sonhava o homem
a pedra pensava o tipo
o rótulo, a nota, o nada
tudo o sujeitava,
ele era diminuído de si:
um fantasma

o sujeito era só um caminho
sua vontade, outra decisão

curioso:
ele votava
ele comprava
ele elegia nos menus
ele escolhia profissão
ele crivava amizades
ele lia revistas
escolhia lados e amores

pensava que pensava
irritava-se até,
na tola certeza
do quem manda aqui sou eu

será que não sabia dos poderes do tempo?

ensaios sobre setembro – 2

eu não conheci
a orgia dos padres
não roubei vinho
em sacristia
ou adormeci ao som
sufocado dos coroinhas

eu não atravessei
bêbado a fronteira
dos corpos amontoados
não fiz promessas
no vazio do ventre
das multidões

eu escolhi dia de chuva
para começar sapatos novos
joguei bola no morro a cima
deixei de fora o dinheiro
quando dei em comprar sentidos

eu não escalei palanques
fiz um arquivo morto de gravatas
recolhi, para perguntar das frestas
e descansei em dias de sol

agora, atravessei a rua
que levo tatuada no corpo
que é pra visitar
o outro lado de mim; e vou.

tenho lentes nos olhos
que são pra filtrar
o que desbota os dias

e procuro…

do teu medo
eu nunca fugi

tenho asas magras,
de alguma serventia

quero.
não espero
viver na tua boca

palavras-talheres

Era dia 11 e eu comemorava aniversário. Das mãos de um monte de gente querida, que rodaram um guardanapo e tinta verde, nasceu uma poesia assim, feita de mesa, feita em presente pra mim:

uma massa fresca
uma flor vermelha
três décadas e sóis
sete mesas geniais
mulheres grávidas
um beijo vermelho da Deise
bolo de chocolate com cinco brigadeiros
toalha te-adoro
bolinhos recheados,
de gorgonzola, nunca mais!

são paulo acolhe tudo isso
29 amigos e 15 copos de cerveja
tomates secos pisoteados
fome porre fome
agente quer comida!
direito de repetição
uns chegam outros partem
precisamos de mais
flores, de mais você.

E me entregaram, não assinaram, mas está tudo aí. Eu juro. Viva a poesia, viva-poesia. Viva o ter amigos, porque nada é mais.

ensaios sobre setembro

a gente é sempre
um tanto de rio
em que não se
navegou

a gente é uma
nuvem de chuva
nos agostos do sul

a gente tem sempre
um quarto apagado
no escuro da casa

a gente é um
pedaço de história
que alguém vai narrar

a gente é quase
a gente é será.
a gente está
no depois da curva
a gente é, no suspiro.
e a gente é uma pausa
dos outros.

a gente vive.
e viver?
viver é uma vontade