serra do vento, 35

da rua daqueles dias
– daquele descidão –
resta um muro amarrado
a encerrar histórias,
um tempo de bola
num mundo que tinha
um tamanho
e cabia

tenho lembrança do futebol
os golaços marcados no portão
– fiz muito mais de 1000,
que me perdoe Pelé.

a gente experimentava
tudo, era a rua nosso território
terra onde plantei e colhi
as primeiras curiosidades.
tanta coisa sempre nova
tanta descoberta
no conforme de cada família

eu fiz um universo com todos
os nomes e todas as gentes,
acho que nunca perdi
os personagens da minha rua

Artur, Maria e Celi
Magnólia, Ademir e César
Osmar, Vilma, Anderson e Fernando
Graça e Nelson
Afonso, Ivone, Breno e Taís,
César, Edi e Verônica
Jair, Marilda, Paula e Renata (ah Renata!)
Maria, Pedro, Paulo, Fábio e Paulo
Cida, Airton, Renata, Milton e Sônia
Oscar, Cida, Jeferson e Kenísia
Sebastião, Maria, Eduardo, Marcelo, Vanessa e eu

tantos de quem emprestei
a moldura do meu tamanho
aprendi palavra e juízo
alegria e lágrima
disputas, amor e solidão

da rua daqueles dias ainda
sou eu a atravessar as ruas
contando essa história

e aquela gente toda a
falar pela minha boca

mais infâncias

a infância é um caminho,
sempre é.

naqueles dias fazia da
colorida capa do edredon
nossa máquina-do-tempo

dali viajamos a todas as terras
de dinossauros: latiam lá fora
enquanto a gente se encolhia
em pânico-gargalhadas

dali evaporamos ao futuro de todos
os carros e gente voadora: lá fora
robôs soldados a latir em ameaça

aquele jardim era uma passagem
cada planta, pedra, bicho
tudo emprestava pra gente o
feitiço de ser outra coisa

canibais por detrás das moitas
ninjas escalando o telhado
a terra que engolia tesouros
areia que matava a fome

tudo como se com vontade
razão e movimento

devo ser
que me explico
pela máquina-do-tempo:

este agora é um futuro
que me abraçou pesado
enquanto carrego
o quem-sabe poder voltar

de quando em quando
penso ouvir o cachorro
misturado a criança, café
e bolo de cenoura

vai ver é que a gente
corre muito
que é pra não estranhar
o mesmo jardim, o sempre
edredon e o susto
de que não vai crescer

foi

sempre vai uma cabeça ingênua
nas longas comitivas da gente.
quando um moleque, boi-de-piranha
a sacrificar em travessia o preciso.

um assum-preto a varar na
cerca os próprios olhos.
uma raposa a roer na
armação a própria pata.

a onça a mastigar filhotes.
Chronos, chavelhudo, a
dilacerar cada cria derradeira,
essa sua tanta condenação.

a dívida não há quem pague.
o poço não há quem seque.
a foice não há quem pare.
a febre não há quem tire.

atire, outra cabeça.
sangra na curva em pirambeira.
perde um pedaço, farto, parto
que é pra cursar, calado,
nova ribanceira.

dos mundanças

do fiapo
d’água,
arroio
de essências,
daquilo
que vim

no agora,
escandaliza
um rio

bom
perder o
horizonte,
ver o
sem fim
de cada
corrente,
cada veio
d’água
vistoso,
infinito
quente e frio

pensava remar.
que nada!
a vida
é questão de
ser-peixe.
infiltrado
d’água
nas guelras
seguir
misturado

enredado
de si, das
moças e botos
praia e tocos
todas histórias

misturado
mergulhado
no sem fim

e fazer-se
sempre
chegando…

cerrado

cerrado
terra
em milagre,
desenganada.

hoje,
assentado
em mim,
conheço o cerrado
do impossível.

na picada
rachada
a gritos –
verdades
retorcidas
em galhos
hirtos, mato.

um campo
sem sombras
esconderijos?

tudo
é sem parada:
revoada
florada
corredeira
pó.

o cerrado é
enquanto
recolho
pedras.

peças
no pra-sempre
desses todos
quebra-cabeças

missa de domingo

amanheceu o dia.

às seis horas
– quase ontem –
levantou-se,
devoto de si

entre os dentes
o terço de palavras gastas
confianças
graça armada em barro

bem dito o dia de provar o corpo
a intensidade
de uma missa em cápsula

de tudo se livra
ao todo converge
salve o reencontro
salve a descoberta

salve o homem-templo
salve o que desperta

palavras da salvação
– tudo vem de dentro de nós