samba da intenção

carbon-1406746_1920

ando inteiro
só quando posso
já não é muito
onde faz nó
meu coração

não leve a mal
eu sempre venho
não há cansaço
que me tire
a direção

se acaso é dona
do tempo – lhe confesso
que nada posso
eu não passo
de ilusão
 
mas se a prosa
é por história
você já sabe
tens de mim
só devoção

leva meus lábios
aos pedaços
faz raízes
onde eu sou
só intenção

sou passageiro
não quero nada
e vou calado
qual as cinzas
de um vulcão

se acaso é dona
do tempo – lhe confesso
nada posso
eu não passo
de ilusão
 
mas se a prosa
é por história
você já sabe
tens de mim
só devoção

Calcutá

sea-2561397_1920

lua em vermelho e
os dias em Calcutá
de esquinas e nãos

volto a beber areia
torna a teia em tez
o nada não tem fim

o tempo come tudo
água se faz em sais
o verde em ilusões

faíscas à beira mar
de fronteiras azuis
e pás de reversões

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar

de Djavan bebi o a
de Caetano o seu cê
Julinho nem cantou

vai roto um manual
caducas as sessões
e o tempo explodiu

vento veio por fins
longe se pois perto
e o cais se encostou

o medo é que o amor
tão e tanto ancorado
queira partir de mim

faz frio e há fumaça
e a nau deve zarpar
fazer o corpo em nós
se quero o teu lugar

longe, outro e capa

princesa
usei demais as luvas
que ganhei de ti

e já esqueci
minhas mãos

onde é pano
onde sou
onde és

fiz-me um nó
cola de ti
sombra, talvez

talvez

talvez eu
nem saiba quão
rígido e frio
meu aceno
se fez

deixei de sentir
o trinco da porta
a pele dos pêssegos

deixei de pegar
a água dos olhos
o rosto cansado

um buraco
nas mãos eu sou

e passei a sofrer

de um tipo de
nada
de um tipo de
capa
de um tipo de
longe
de um tipo de
outro

até o tempo
voltar

até me escorrer
dos teus dedos

me socorrer
de ti

matadouro

gralha

mataram Aymberê
mataram mataram
mataram Zumbi
Tiradentes
mataram prenderam mataram

mataram Olga Benario
mataram mataram
mataram Marighella
Vladimir
mataram prenderam mataram

mataram Chico Mendes
mataram mataram
mataram Dorothy
Marielle
mataram prenderam mataram

na enxurrada de sangue
e na erosão dos corpos
a nação-matadouro
perpetua ocos:
ética-oca
santos-ocos
ocas-notícias
justiça-oca
gente-oca

que ontem [e sempre]
nos prenderam compadre!
prenderam
as ruas os pobres
os negros os índios
meninas-meninos-vontades

e um dicionário de brasileiro
– língua tantas, suaaaaaaaave
rosto escuro, corpo samba
bola terra banho maní –
foi dado às traças.

para que minha
filha só fale inglês,
prenderam vozes
política direitos.
prenderam Lula
na terra fria do Paraná

***

mas era outono,
tempo de gralha
semear florestas

e de brisa que não cessa

engrenagens

carna

engoli a esquina
e esqueci o samba
morri em fevereiro

um trio elétrico passou
numa multidão surda
e eu restei em pó(ste)

se é triste partir?
pior é partir
no verão

quando não era pra isso
era pra ser só samba
era pra ser ciranda

mas eu caí; na algazarra
IPVA, IPTU, INTIMAÇÃO
meu peito estilhaçado

e eu, sequer, fantasia
eu não me fazia de herói
só beijos, só onda, só ar

mas meu tempo se escondeu
um pierrô me ocupou
e eu não vou mais brincar

rebelião

knot
Eu não moro mais na dor
Eu fui embora de mim
Fiz da casa em que me tinha
Seu poço de saudades
Anzol na sua mão

E hoje sou tempestade
Corro a cidade, nua
Sou muitas, sou mil meninas
Nenhuma delas, sua

Me banhei em sete mares
Em todos os lugares
Vivi um grande amor

E venci em novas guerras
Plantei na minha terra
A minha direção

E hoje sou intensidade
Como a cidade, crua
Sou tanto, sou mil meninas
Nenhuma delas, sua

Desenhei a minha arte
Levei meu estandarte
Em meio à multidão

E bebi todas as letras
De novos argumentos
Me fiz em construção

E hoje sou liberdade
Tomo cidades, ruas
Sou todas, sou mil meninas
Nenhuma delas, sua

Nunca mais, entre paredes
Pensei uma pessoa
Fiz disso intenção

E os grilhões de outras tantas
Quebrei com nossas tranças
Nossa rebelião

E hoje sou diversidade
Mais do que sol, sou lua
Sou tudo, com mil meninas
Nenhuma delas, sua

teorema

lights

quem não se cura
com o tempo,
não vai despertar

quem não levanta
na queda
não vai mais voar

quem não comprende
o corpo
na palma da mão

quem não conhece
o gosto
do céu e do chão

não poderá
não poderá

quem foi ao mar
e voltou
depois de um furacão

quem conheceu
o silêncio
e a lei do cão

quem foi além
do que lhe ordenou
o patrão

quem se fez forte
mistura
Pará e Sertão

renascerá
renascerá

quem não se escuta
a ninguém
saberá escutar

quem não se perde
na estrada
não vai se encontrar

quem não desiste
do curso
não pode aprumar

quem não se enrola
ao mundo
não conhecerá

nem saberá
nem saberá

quem não se faz
um problema
não tem solução

quem não se mede
nas ruas
não tem direção

quem não se baila
sozinho
não vai cirandar

quem não se quebra
em pedaços
não pode amar

nem partirá
nem partirá