
aconteci no mar
porque um
quase-eu
se assenta
na terra
marujo a
evitar o caes
barco a ignorar
faróis
âncora desgarrada
navegar,
porque ser
é impreciso

aconteci no mar
porque um
quase-eu
se assenta
na terra
marujo a
evitar o caes
barco a ignorar
faróis
âncora desgarrada
navegar,
porque ser
é impreciso
ali se comia ratos
alice pensava doces
ali se bebia sangue
alice sorria cores
ali se ferrava
alice sonhava
ali se matava
alice assistia
alucinado tempo
alucinante ilusão
alice alucinação
ali luciferificação
dizia-se porrada
dizia coração
dizia-se estupra
dizia uma canção
ali se perdia
alice sensação
ali se fazia
alice alienação
aliste-se menina.
alice ali se perderia?
caralho.
demora, eu sei
toma vidas, toma tardes, toma tempo
mas não tarda alice
ali, se tocar
aliciar-se
acordar em
escolher contradição
minha poesia é sinthoma
vertigem no pensamento
eu vomito frases e interrogo
onde tucanos almoçam silêncios
só as putas sabem os homens
quem a eles confessa buracos
bebe rios de oca intimidade
infinita força de quem escuta
é. mas hoje…
hoje é outra sexta-feira
ora manejo gostos perdidos
o tempo assalta ancoragens
a encher de palavras a funda
as quero composição lancinante
tudo esparrama na landa de agora
a ver se o sol faz de surra e pancada
o marulho deste texto deixado
é. mas hoje…
hoje é outro dia
de palavrear rebentos, rebentos, rebentos
toda pressa reprime
um silêncio
enquanto ponteiros
sequestram corações
o asfalto falseia
os contornos do tempo
e de solidão ninguém
se orgulha nas madrugadas
um dia é uma coleção
de vontades
braços quentes,
arremedo de útero
enquanto o cais
é um covarde viajante
toda invenção é aragem
em pulmões inférteis
toda poesia é lamento
êxtase e aparição
amor retirante
existência oprimida
ajoelhada e desvalida
ressequida terra
pedaço escarrado e
rejeitado do teu
ser-latifúndio
no medonho
amargado do gosto
o silêncio forçado
amor vigiado
na espreita
do jagunço armado
capitão-do-mato
amor capturado
retirante da fé
pedreira e caminho perdido
desorizontado e tonto
tornado à tapera isolada
porque se há, no onde,
sinal minguado
da chuva chegando
como se o quase fosse
a promessa
em fazer terra nova
nova propriedade
a receber sementes
que não podem
nunca
amor retirante
acariciando os contos
do terço, amor beato
dependurado em novenas
confiado, resistente
a ser amor desenganado
amor empoeirado, deus e diabo
fundamento enforcado
doado e prometido
plantado na fome e na sede
tigela de pouca farinha
raíz arrancada viva
galho seco a deitar ilusões
amor retirante
na cabeça resto d’água
lata sofrida
oco-eterno-vazio
ninho de vento
amor enrrugado
criança envelhecida
embrutecido das horas
amor semeado em terra seca
chão maldito em tantas covas
corpo evaporado e sublimado
queimado do sol
pássaro abatido
amor apagado
nas forquilhas da vida
te deram veneno
meu preto
tua garganta lúdica
fez erosão
te roubaram tempos
meu preto
tua poesia túnica
vira trapo
na boca
de quem te escarra
tua pele é prêmio
e a nação
meu preto
tua nação
é também
teu tronco
a devorar teu sangue
te deitar açoites
esfinge indecifrável
entidade inviolável
esta instituição
tentam arrancar-te
Deus, meu preto
enquanto tua boca
confessa essas igrejas
dentro de ti
– eles enlouquecem
tua palavra
meu preto
e tanta gente
desligada e repartida
só daria comoção
ódio
tantas cabeças
enserpentadas
a destilar veneno
são górgonas
meu preto, são
quem te espeta é pobre
quem te devora é pouco
tanto recalque
a eclodir pancadas
tanta gritaria
te envenena, meu preto
mas, que nada
tu sabes
tuas porções
em tuas poções
habitam tantas mulheres
tanta gente
tanta diversidade
que não há remédio
meu preto
nem há veneno não
é a vida, apenas
tuas bruxas e sereias
o teu grito e tuas luas
são as ruas, meu preto
é o que te faz viver
aborta
do olhar
os embriões
da tua impotência
aborta
teu medo
teus padrões e
teu silêncio
aborta
tua burguesia
teu orgulho
tua servidão
dispa-te
abra os olhares
do teu ventre
ao impossível
[a escrevo em muros virtuais, pelos 40 anos da luta]

tenho desapego
pela estrutura
o texto
instituído
não me tem
tenho a poesia
subtítulo permanente
de cada retrato que faço
texto-minuto
poema-fátuo
agora-é
agora-é
agora-é

acordou nublada
colada na cama.
não sairia do útero-quarto
onde gestava amarguras
acordou disposta a viver
cada segundo de ontem
cada imagem de amanhã
mas hoje? não.
hoje era nada outro dia.
seu espelho
no quarto parado.
refletia vazio
resolveu que ia chover
assim passou as horas
escorrendo, derretendo
evaporando
tudo o que não tenho é teu.
sejas, onde recuo
farta-te, onde
mínguo esfomeado
vou, para que
tu sejas
sou o que não
sustento e sinto
e calo no que falo
me escondo
para tê-la avanço
quase-estou
quase-ocupo apareço
que é pra te ver erupção
canção que não canto
tensão que não faço
perdão que não ofereço
coleção de nãos
museu vazio
à tua exposição
e calo no que falo
porque é
tua a história
tua trajetória
a me atravessar
camisa-aberta
a exibir teus peitos
teus jeitos no meu encerrar
sou tua noite
o escuro
sou furo
duro e firme
pedregulho
do teu lapidar
um palco
álcool a te extrair princípios
sou princípio e precipício
a projetar teus vôos
e ecoo teu grito
paro, porque te quero alcançar
sou sono, abandono, moldura
sou preparo e disparo
tua projeção
sou o que não sou
sou promessa
peça da tua manipulação
sou isso
teu isso
tua coisa
tua rua
sou teu sou tua
folha calada
tua palavra
teus rabiscos
risco,
sou teu risco
e sigo objeto perdido
caso assunto
matéria negócio
evento mistério
tudo o que tu queres
tua dúvida, tua angústia
tua busca.
…
teu jamais encontrar