ensaio sobre setembro – 3

o tempo não tem cabeça
nos ocupa e encarna
que é para saber pensar

será que a gente é o sonho do tempo?

lembro um filme que não assisti.
o homem era um delírio
era um homem sonhado
um tipo de sombra
amarrada a outra
existência – indisvencilhável.
pode uma sombra existir sem coisa?

o tempo sonhava o homem
a coisa sonhava o homem
a pedra pensava o tipo
o rótulo, a nota, o nada
tudo o sujeitava,
ele era diminuído de si:
um fantasma

o sujeito era só um caminho
sua vontade, outra decisão

curioso:
ele votava
ele comprava
ele elegia nos menus
ele escolhia profissão
ele crivava amizades
ele lia revistas
escolhia lados e amores

pensava que pensava
irritava-se até,
na tola certeza
do quem manda aqui sou eu

será que não sabia dos poderes do tempo?

ensaios sobre setembro

a gente é sempre
um tanto de rio
em que não se
navegou

a gente é uma
nuvem de chuva
nos agostos do sul

a gente tem sempre
um quarto apagado
no escuro da casa

a gente é um
pedaço de história
que alguém vai narrar

a gente é quase
a gente é será.
a gente está
no depois da curva
a gente é, no suspiro.
e a gente é uma pausa
dos outros.

a gente vive.
e viver?
viver é uma vontade

nas janelas das cidades

em qualquer janela
se dependura um adeus
enquanto os livros
são guarda-lágrimas

todo oceano é um
delírio da terra
e os pratos de sopa
teus sorrisos que afoguei

tenho uma tristeza: vos digo
um amor elástico a
percorrer meu corpo
feito um elevador vazio

assim está. escuro.
o silêncio é longe
é a cidade Chernobil
em construções paradas.
lá, a única coisa viva é o tempo

ele passa,
faz os sonhos
em poeira pálida
e me apequena

todo amor
é radioativo,
e permanente;
perco pedaços
longe de ti.
terminará?

mas os mares
trabalham lento
em dissolver a terra

em toda janela
há também espera.
e os cabelos brancos
das casas, ao vento
mediterrâneo
fazem verão
em confiança

todo vulcão é
terra que se
pensa fogo
todo barro é
já desespero

são não mais
que quases.

então
não sei bem
as esperas.
viver em estado
de hemorragia,
pulso, pulso, pulso
nem sempre é quase-bom

que toda explosão
é também
paciência:

vontade é espera
certeza é medo
silêncio é desejo
saudade é verdade
distância é promessa

e o tempo
passa.
passa pássaro
passa longe
passa à quando
passa à quase
passa agora
passa à nada

madre-angústia: vai-te

velha senhora
conquistado pátio
vapor-de-lágrima
lástima muralha

tuas veias secas
ilhas-de-solidão
fome solar
mastigado homem
vale teu dia
um troço de pão

teu pedaço de
gente é pedra
areia o teu útero
laqueado ao tempo
tu, que aprendes?
nada?
navalhas nas mãos
na amarra
alguma tentação?

velha rolha
ressecada
a tua vida
vinagre vencido
e tuas tripas
ratos-de-tróia
a rasgarem-te
devoram-te
enquanto
devora-me
velha senhora
sentido velho
cloaca

vai-te de mim
feito um
carnaval de insônia
que prepara
rasga apogeu
resiste, mas
engasga
encolhe, morre
em cinza mijada

vai-te velha
bruxa cansada
agora não.
agora eu quero
corro, durmo
falo, disparo
devoro o tempo.
devoto
das noites
valencianas

já vou

vou,
deixo-te
em elegância
de orvalho

adeus leve
sonolento
sereno
sobre nós

eu? quase-exilado
abraço distâncias
encolho permanente
entre o que
terra e brisa
deposito-me
e sigo
líquido petrificado

aceno último
porque vou,
não sou terra
tampouco outro

calo do tempo
nas nossas mãos
calo do quase
calo o amor

inventar palavras

gosto de invenção de palavras
plenitudiná-las
no quando quero

fosse assim um
pescador de sentidos
saia pelo mar
em dias claros
anzol sem isca
na persistência…

e vem.
cada palavra bonita

desilusão
vindima
caes
orvalho
silêncio
saudade
produção
invisível
contrário
enxergamento
amargura
amor-a-pinceladas

e vem. Tudo enroscado
tanta coisa
plenitude nonada

e vou.
eu,
pescador de palavras

meta-poesia

o que te ofereço
é leitura
linguagem em produção

nada aqui se faz
feito ícone
demarcação

o texto possível
é o texto em sombra
sabido do seu tamanho

escrever é também
produzir pegadas
tatuar a pele do livro
a sua retina

estrondo contido
em cada recorte íntimo
nossa singularidade
arremessada a cada
linha experimento

penso em auto-convite
auto-provocação
autorização ao risco
embate e contraposição

a imagem do mundo reificado
destruir pela subjetivação
autorizo-me
autorizo contraposições

fundar imagens
auto-imagens em
toda posição, e

tratar a palavra
feito lobisomem
meio-do-caminho
a poesia descentrada

desconcentrada

linha em fuga
homens e lobos
conflito e
confrontação

elogio ao encontro

Te encontro nu, feito amantes, feito antes, antes de tudo. Porque quero tua inteireza e a tua compreensão. Pela distância já nos sabemos, e basta. Sobrevivemos em um quase se acostuma. Hoje eu digo não porque é outro tempo que escreveremos juntos. Chove uma segunda-feira em que somos desprovidos de distância. Antes te ouvi, agora quero as tuas partituras; as minhas são tuas. Nossas leituras, onde desatino, onde desafinas, minhas pausas e tua dissonância em outra experimentação. E mais. Do fogo que pensei em nunca haver em mim, lá escondidos todos os meus outros sentidos, coloco-me teu. Da terra, do que não te depreendes, tuas raízes profundas mistérios invioláveis, te quero livre em disposição. E aéreos, inspirados, abraçados sob a luz que inflama olhos e escurece nucas, nos quero meditação, troca, permuta de corações desanestesiados, interessados nas horas. Nos quero água em movimento. Por que aqui sabemos um tempo de ser. A gente promovido do ontem e do amanhã pintores em composição. Lançados em leituras do mundo, a estudar existências no tudo aquilo que ocupa e há. Cada nossa desimportância tensão inimigo desgosto desprezo insônia, cada miséria e cada abundância, as marés, entre estarem e não. Assim me apresento: barato, pronto, voraz de ti. Assim te espero, na maravilha de quando a gente escolhe para onde e de que jeito olhar. Hoje te encontro minha companheira. Porque morrer são planos, e viver é sempre questão de agora.