quanto ao demo?

Ah, não.

Nada
Nunca
Jamais
Por nada
Nem vem
Nada feito
Nem a pau
Nunquinha
Nem morta
Nem morto
Nem nunca
Sem chance
Nem pensar
Nem por ele
Em absoluto
Nem fodendo
Nem hipótese
Nem por Deus
Nem que morra
De jeito nenhum
De nenhuma maneira

Mas nem…………………….
É réiva, ceiva escorrida na boca que cospe.
Nego. Escarro. Recuso. Refuto. Rasgo. Deploro.
Devolvo. Berro. Desgasto. Expulso. Excomumgo. Desconfesso.
Ponho lá. Afasto. Repudio. Digo que não. Proibo. Impeço. Enterro.
Que é tudo. É um só inteiro e cismado no pouco que há de possível. Só

otero

o mar não vai saber vestir em ti
nem é cedo o dia em que chegaste
e não há águas que te façam uma
quando tu és vulcana de pátrias

tu segues um encontro de cores
a língua enrolada de teus pares
uma mina a escorrer maratonas
em conta da água que não te cabe

tu és um aviso atrasado de enchente
e o colo quente que a cidade perdeu
esta outra refeita em cópia bruta
lamina d’água no oco do paredão

nada, não te cabe o coito das águas
nem o vaso partido, o balde, o poço
nem o lago andino, o rio de-janeiro
nem cais nem tu nem mar nem tina

pequenas palavras de amor – 2

e tudo aquilo
que era só
o quase-amor
foi derramar em palavras

aquela brisa
dos confins de
onde a gente
mais silencia,
concluiu em sim
corpo físico palavra

feito um vôo
de borboleta
na decisão de
acomodar-se nos
ares, no repouso
de camas invisíveis
em que só
se destina em sono
quem crê que o
si mesmo
vai onde não se está

feito o tempo
em que cada um
é aquele peixinho
embebido na boca
de quem também
já partiu

os destinos vão
sempre sonhar
com alguém que os
rodeie com o
sorriso de quem
sabe ordenar em desaviso:

todo aviso, pois,
é a gente mesmo
marcado em mandanças

este imperativo
de todo querer
pétreo que
ribanceia
dentro da gente
sempre a
exigir das mãos
o impossível.

quem quer, aliás,
é aquele que
em si, jamais
se conhece

aquele que desmanda
em ato, em cenas de
repetitivas pernadas
corpo a fora
tudo aquilo
que a gente
não
quer
ver

o jornal

ler o jornal
não me acode

não há um só tempo
no olho amargo
destes tipos

e encontro uma prosa
seca nos dentes de quem
articula os fatos

um gosto de já morreu
como se fosse
tudo escuro no amanhecido
e só lhes coubesse
ser Creonte num texto
que só enxerga nadas
e que me cobra caro
a luz e o doce
que faço ver
nos arredores da
minha cidade

ler o jornal
não me acode

porque ali reza a feia
cartilha dos brancos
que nunca souberam
pisar o chão
com medo de enraizar
prazeres na terra fértil
dessa cabeça pátria
misturada que apenas é

porque os diários
são uma coleção de nãos,
gene do arame que
insiste em cercar as ruas
e deitar os campos

ler o jornal
não me acode

porque hoje é um dia
de semear amplos,
e de regar de tempo
gana e suspiro
as direções do agora

fino

um fio de frase
corre fino, fininho
no canto de cada boca

ali se desenrola a
história que cada um
quer dizer de si

porque todo passarão
só voa mesmo quando
fala em roda que
foi capaz de pular.

fazer-se é mesmo
sina difícil, encapelada:
a gente só desenrola
quando ameaça contar

e é aí, no dito, que vão
os brincos das coisas.
um pingo de palavra
sempre embeleza um oco

que mais que o beijo,
o que faz valer a boca
é sua fome em narra

seriguelas

seri
as seriguelas cheiravam quintal,
da árvore magra no
fundo da casa onde a
gente colhia jóias e
cuspia esquecimentos

o torto era só virar caroço,
desrepresar no mato
o resto de tudo que
se mastigava coisa-séria

ali a meninada juntava tardes
e rasgava juízos diante
de qualquer precisão de caçada,
corrida, bola ou jogo-de-esconde

[mas ali fazia também um querer
de outros projetos, mais terra]

e um fio de futuro
sempre pendia da
janela aberta
– já no finalzinho,
por onde um grito impreciso,
mais bobo do que bravo,
vinha sequestrar o sem-teto
de cada dia.

de tudo, o espírito
da cidade, foi o que
mais herdou

pequenas palavras de amor

porque
uma barriga
pode piscinar
um mar

só na razão que
uma moça
pode artesanar
o tempo

e carregar todo
o será da gente
no escuro do
seu umbigo

(…)

mas quando?
isto tudo
vinha ali,
em tempo-a-tempo,
as mensagens

(…)

todo aviso, pois
é a gente mesmo
marcado em
mandanças

este imperativo
de todo querer
pétreo que
ribanceia
dentro da gente
sempre a
exigir das mãos
o impossível

e é só.
é tudo.

rosa

roseni
não esqueci Rosa
rabisco aguçado
do raso querer
e do tanto saber
deste ó-em-pó, povo

nem desfisguei-a
ou a desli, no fundo
de meus raros juízos

não esqueci Rosa
palavra-de-costura
em todo vão e rasgo
onde se aninha a
política deste uai
jeitão-de-gente

nem o apaguei,
ou encabrunhei meu
gosto em filosofá-lo

não esqueci Rosa
passarão-de-grito
carta de esgarçar
segredos que a gente
só escondeu de si

nem acomodei-a
ou dependurei seu gosto
feito réstia do que já passei

não esqueci Rosa
dona de rasgar picadas
por onde todo macho
já havia deitado um fracasso
em cachaça de esquecimento

nem eu o encerrei, ou
prateleirei o guizo do
bicho que os nós acorda

não esqueci Rosa
esse corpo de dizer anzóis
e enganchar todo furto
da prontidão que o peão
merece pra não arriar

nem eu a perdi, ou
a verti num último gole
da água que chorei acabar

nem não deixei poeiras
enganarem os tempos
no que destilamos ordens

nem me fiz inquieto
nem me mordi de incômodos
nem me passei de Minas

não apaguei
não desmedi
não desliguei
nem devolvi
os fardos lautos
de sabidos destinos

não, nem nada, nonada,
eu ancorei aqui.
nem Guimarães partiu
nem me esqueci Roseni

muerte

se cambió la muerte,
de un vaso roto
a un tipo oscuro de piel

que la use, así, como nada
en cada noche muda
desde que tomaste
el barco de luces
que te partió de mi.

se cambió la muerte,
en un ocaso de mi cuerpo opaco
memoria olvidada de su risa
en un corazón sin sonido y ritmo

que no tuve entonces como
una mano a remar mi sangre
pero si un camión-mezclador
a tornarme hierra
sombra de existencia.

poes sí, se cambió la muerte.
De un lejano destino de los hombres
en mí compañera de desayuno
– vacíos ojos rojos,
a preguntarme porque vivía