resistências

a porta é fechada.
e em toda palavra
mora um quarto escuro

o pouco das falas
não é que é a gente
mesmo. Não moça.

o silêncio é a
barriga grávida
dos nossos destinos

é um menino que
vai beber da luz e
desenganar da solidão

como em toda novena,
cada conta é um pedregulho
na aragem das mãos

cada palavra uma conta
um calo no dorso do tempo,
Parrão a me cobrar.

[madrugada na roça. escuta o eco que faz]

o silêncio é um jeito
arisco de não estar
na mira das vozes

a palavra parada
tem os olhos fechados
no esconderijo de si

e o pior cego?
aquele que tem
medo de ver

porquê o querer é
só uma bala atirada.
é sem importância.

quem manda mesmo
são outros macacos,
outras resistências

não

um tempo
à beira das horas
nonada do mundo
esquecido de estrada
palavra e disposição

levar borracha do bolso
em apagar a tendência
feito a ave-maria
lusco-fusco em solidão

ser feito d’água
em diluir
tal bruta concentração

e acordar comigo
parir minha vez
na palavra que evito

esse avesso do sim
estranho raro
estrangeiro: não

canto de espera

passa o quero-quero
que tanto quer
esse pássaro,
isso crucificado
grita-sem-coisa
voa sem porto

quero-quero-quero

que tanto traduz o mundo
tudo ela aquilo tanta gente

quero-quero-quero

aveamplificador
teu bico é um balcão
fila de náufragos
teu vôo arremessa
bocas fechadas
gente-que-não

quero-quero-quero

pássaro vagão de desejo: vai
eu vi a fome tua alma
em incessante tentativa

quero-quero-quero

tu és tanto silêncio
teu nome é distância
teu nome é não posso
teu nome é não tenho
teu nome é cadê
teu nome é
ave-

quero-quero-quero

comentários a el grand masturbador

dali
entardece o dia em tímidos vermelhos,
meu rosto pálido curado no tempo seco
é um fruto no tronco em infinito inverno

toca um vento amarelo os olhos,
dias e noites me emprestam espíritos
quando sou nada mais do que respiro

deserto, meu corpo é uma ampulheta
cíclica, máquina-do-tempo sem fim
máquina-de-areia em uma obra infinita

caçador que aprisionou um coração
engaiolado e pulsante, memória do
dia que vai surgir na curva das horas

o rosto é também medo da serpente
pesadelo adotado da infância tribal
sedução e vaidade que é e assombra

e a tudo devoram as águas do tempo.
não há tanto assim no largo horizonte
e minha palavra é um barco-besouro.

procuro, logo existo. Sou essa busca
soprada de escuta em escuta, olhar em olhar
entre portos que não ouso, talvez, ancorar

notas simples aos reis daí

suas cabeças levam pedras
a cidade é um velho leão
atormentado em insônia. sonha
a zebra que não pode mais

a savana é a tela calada
nos labirintos gélidos museus
e toda noite é agonia quando
a força fermenta-se em medo

um muro abriu salas falantes
onde havia antes adagas cegas
e o vapor dos grilhões sublimados
também apodreceu armaduras

refluxo e mistura pelas ruas
navegações invertidas, e a
nação em desespero ao
ser descoberta; riso ao avesso

aqui, tudo o que é de pedra
já está inventado e firme
até as idéias e rebeldias
são colossos prédios, quadros, bustos

que se leva daqui, então?
não é assim descobrir?
deixar pegadas na carne
arrancar o valor em pó?

não. não vive nas contas
o conto que nos interessa
sob as saias, vozes e pressa
o reino transborda desejos

meu reino, por não ter medo
meu reino, por haver tentativa
meu reino, para que exista reino
meu reino, para que eu tenha lugar!

assim gritam seus sussuros
enquanto Madrid sustenta
muralhas e defende seu feudo,
seus flancos e a sua vertigem

porque há cabeças
que não se querem pedras
há leões em um balé surreal, assustados
surpresos com o terno abraço das zebras

mariscal

conchas
Pelas praias de Valencia, tantas conchas. Penso ter me lembrado Neruda, seu oceano de palavras. Em dias em que falar é permanente invenção…

minhas palavras
são minhas conchas
sou carne assustada
na casca das minhas frases
meu grito é esqueleto
e toda argumentação
minhas cápsulas
escrevo as linhas
curvas do meu corpo
torto o meu útero
onde capturo oceanos

minha boca cospe
ossos no caes
onde âncoras faminta
minha língua calcifica
petrifica as sílabas-górgonas
que se enlaçam em tuas redes
meu grito é então pérola
antígeno a preparar
primavera nas tuas mãos

minha prosa me esconde
tu me invertes

me fecho
enquanto o vapor cáustico do
teu desejo me descola

faço um segredo, me calo
tu és o estupro consentido
os dedos que me estragam de assalto

eu faço voto, estaciono, me asseguro, escondo
tu és o pote fervente, o óleo escuro
que me dissolve

eu me encaixo, adormeço na trama
de corais serpentes minhas certezas
tu me distrais, em tapas corta
minhas linhas me faz presa flácida

eu falo, tu me alucinas
eu falo, tu me exterminas
eu falo:
casco férrico
pele pétrea
alma plúmbica
produzo palavra sólida

enquanto oras um caldeirão
em que me esqueço máquina
e lápide

mergulho em ti pra me lembrar
conversa, bossa, plá…
mergulho e flutuo pra me lembrar
que sou antes qualquer palavra

tudo, barata, ave, nada
gente, oco, água, pouco

sou alfabeto
plano e buraco, sou quase.
sei o gosto de ser
qualquer palavra
e sou também ensaio
letras nas mãos de um menino

sou armação, quebra-cabeça, carta-de-amor
rabisco e palavrão,
sou pixação, exo-vontade
sou palavra
que me fala, em
qualquer possibilidade