canto de espera

passa o quero-quero
que tanto quer
esse pássaro,
isso crucificado
grita-sem-coisa
voa sem porto

quero-quero-quero

que tanto traduz o mundo
tudo ela aquilo tanta gente

quero-quero-quero

aveamplificador
teu bico é um balcão
fila de náufragos
teu vôo arremessa
bocas fechadas
gente-que-não

quero-quero-quero

pássaro vagão de desejo: vai
eu vi a fome tua alma
em incessante tentativa

quero-quero-quero

tu és tanto silêncio
teu nome é distância
teu nome é não posso
teu nome é não tenho
teu nome é cadê
teu nome é
ave-

quero-quero-quero

comentários a el grand masturbador

dali
entardece o dia em tímidos vermelhos,
meu rosto pálido curado no tempo seco
é um fruto no tronco em infinito inverno

toca um vento amarelo os olhos,
dias e noites me emprestam espíritos
quando sou nada mais do que respiro

deserto, meu corpo é uma ampulheta
cíclica, máquina-do-tempo sem fim
máquina-de-areia em uma obra infinita

caçador que aprisionou um coração
engaiolado e pulsante, memória do
dia que vai surgir na curva das horas

o rosto é também medo da serpente
pesadelo adotado da infância tribal
sedução e vaidade que é e assombra

e a tudo devoram as águas do tempo.
não há tanto assim no largo horizonte
e minha palavra é um barco-besouro.

procuro, logo existo. Sou essa busca
soprada de escuta em escuta, olhar em olhar
entre portos que não ouso, talvez, ancorar

notas simples aos reis daí

suas cabeças levam pedras
a cidade é um velho leão
atormentado em insônia. sonha
a zebra que não pode mais

a savana é a tela calada
nos labirintos gélidos museus
e toda noite é agonia quando
a força fermenta-se em medo

um muro abriu salas falantes
onde havia antes adagas cegas
e o vapor dos grilhões sublimados
também apodreceu armaduras

refluxo e mistura pelas ruas
navegações invertidas, e a
nação em desespero ao
ser descoberta; riso ao avesso

aqui, tudo o que é de pedra
já está inventado e firme
até as idéias e rebeldias
são colossos prédios, quadros, bustos

que se leva daqui, então?
não é assim descobrir?
deixar pegadas na carne
arrancar o valor em pó?

não. não vive nas contas
o conto que nos interessa
sob as saias, vozes e pressa
o reino transborda desejos

meu reino, por não ter medo
meu reino, por haver tentativa
meu reino, para que exista reino
meu reino, para que eu tenha lugar!

assim gritam seus sussuros
enquanto Madrid sustenta
muralhas e defende seu feudo,
seus flancos e a sua vertigem

porque há cabeças
que não se querem pedras
há leões em um balé surreal, assustados
surpresos com o terno abraço das zebras

mariscal

conchas
Pelas praias de Valencia, tantas conchas. Penso ter me lembrado Neruda, seu oceano de palavras. Em dias em que falar é permanente invenção…

minhas palavras
são minhas conchas
sou carne assustada
na casca das minhas frases
meu grito é esqueleto
e toda argumentação
minhas cápsulas
escrevo as linhas
curvas do meu corpo
torto o meu útero
onde capturo oceanos

minha boca cospe
ossos no caes
onde âncoras faminta
minha língua calcifica
petrifica as sílabas-górgonas
que se enlaçam em tuas redes
meu grito é então pérola
antígeno a preparar
primavera nas tuas mãos

minha prosa me esconde
tu me invertes

me fecho
enquanto o vapor cáustico do
teu desejo me descola

faço um segredo, me calo
tu és o estupro consentido
os dedos que me estragam de assalto

eu faço voto, estaciono, me asseguro, escondo
tu és o pote fervente, o óleo escuro
que me dissolve

eu me encaixo, adormeço na trama
de corais serpentes minhas certezas
tu me distrais, em tapas corta
minhas linhas me faz presa flácida

eu falo, tu me alucinas
eu falo, tu me exterminas
eu falo:
casco férrico
pele pétrea
alma plúmbica
produzo palavra sólida

enquanto oras um caldeirão
em que me esqueço máquina
e lápide

mergulho em ti pra me lembrar
conversa, bossa, plá…
mergulho e flutuo pra me lembrar
que sou antes qualquer palavra

tudo, barata, ave, nada
gente, oco, água, pouco

sou alfabeto
plano e buraco, sou quase.
sei o gosto de ser
qualquer palavra
e sou também ensaio
letras nas mãos de um menino

sou armação, quebra-cabeça, carta-de-amor
rabisco e palavrão,
sou pixação, exo-vontade
sou palavra
que me fala, em
qualquer possibilidade

nas janelas das cidades

em qualquer janela
se dependura um adeus
enquanto os livros
são guarda-lágrimas

todo oceano é um
delírio da terra
e os pratos de sopa
teus sorrisos que afoguei

tenho uma tristeza: vos digo
um amor elástico a
percorrer meu corpo
feito um elevador vazio

assim está. escuro.
o silêncio é longe
é a cidade Chernobil
em construções paradas.
lá, a única coisa viva é o tempo

ele passa,
faz os sonhos
em poeira pálida
e me apequena

todo amor
é radioativo,
e permanente;
perco pedaços
longe de ti.
terminará?

mas os mares
trabalham lento
em dissolver a terra

em toda janela
há também espera.
e os cabelos brancos
das casas, ao vento
mediterrâneo
fazem verão
em confiança

todo vulcão é
terra que se
pensa fogo
todo barro é
já desespero

são não mais
que quases.

então
não sei bem
as esperas.
viver em estado
de hemorragia,
pulso, pulso, pulso
nem sempre é quase-bom

que toda explosão
é também
paciência:

vontade é espera
certeza é medo
silêncio é desejo
saudade é verdade
distância é promessa

e o tempo
passa.
passa pássaro
passa longe
passa à quando
passa à quase
passa agora
passa à nada

roseni

roseni
acordou nublada
colada na cama.
não sairia do útero-quarto
onde gestava amarguras

acordou disposta a viver
cada segundo de ontem
cada imagem de amanhã

mas hoje? não.
hoje era nada outro dia.
seu espelho
no quarto parado.
refletia vazio

resolveu que ia chover

assim passou as horas
escorrendo, derretendo
evaporando

horas

parado. parado. paradas
as horas
no relógio cansado
esquecido,
como já
pouco importam as horas

ponteiros cansados carregam
o fardo, movimentar
o tempo parado
impresso em círculos
na parede, em
luzes intermitentes.
Cansados, porque já
pouco importam as horas

horas
as horas arquivadas
relógios apontadores
dos destinos de cada recorte
que não vale,
porque a vertigem da escolha
já abandonou as horas

tic, tac, tic, tac, tic, tac
é, não é, sim, não, certo, errado, desarrumado, pronto,
tic, tac, tic, tac, tic, tac…

segue um relógio de inconsistências
espaço vazio e busca.
um relógico ocupado de mim
dos segundos arrastados, eternizados
espera: tic, tac, tic, tac, tic, tac…
haveria ali um espelho a devolver minha outra metade

agora perdida, agora esquecida, distante
consumida nas chamas de si, nos seus próprios ponteiros

ponteiros parados
tempo, tempo, tempo
até ensurdecer despertado
inevitável destino da escolha já feita
tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac
fim do tempo de espera

saguão

dos dias em que há silêncio
devo pensá-lo espaço

vazio arquitetônico
esplanado
pedestal de deslumbramento
e dores

dos dias em que há rumores
devo pensá-los trovoadas

alma em tempo de chuva
sono de tudo o que é terminado
e certo
religio ao que assusta – eu

dos dias em que há imprecisões
devo pensá-las mórulas
tardança em enxergar veredas sólidas

e vai.

para todos os dias
jeitos de compreender
o sol e a lua
coisas que não só hermetos

os faço também eu

que na falta de melodias
vou lhes esculpindo
frases soltas