pausas

Fumaça nos olhos: difícil escrever. É o porquê dos dias de pausa. Mas não se trata de poesia vazia, ou de sujeito calado. Não desisto das letras, tampouco temo errar nas novas regras gramaticais. Não, não. É mais…

A cidade está fria e cinza, mas é só nas aparências. Por aí os dias seguem na efervecência do tudo pode acontecer. São dias de disputas, onde tudo vale voto e projeto. Dias de sobe e desce. Dias da grande crise que temo e desejo. É um tempo de fazer escolhas, como são todos os dias.

Mas sérá que a gente se lembra mesmo que pode escolher? Será que a gente consegue ver diferenças? Que há uns e outros? Que há histórias em jogo? Que há telenovelas e romances disputando nossas cabeças?

Estes são dias para leituras. Tempo para exercitar os olhos em enxergar silêncios e contrários. Quero ver narizes a farejar velhas armadilhas. Eu quero ter um Outubro em homenagem à memória. E te convido a produzir perguntas. Vou começar:

Se a gente chamar uma raposa de bem-te-vi, ela vai parar de roubar galinhas?

linha de passe

lei
São Paulo são esses vultos
uma porção de gente
espremida em silêncios:
a cidade está em guerra!

os manos são esquinas vazias
encruzilhadas bélicas
em eterno não ter por onde…

enquanto você goza,
covarde, canalha, finge –
você não pode ver.
enquanto compra asfalto,
limpeza, pontes, médicos de faz-de-conta,
giram metralhadoras a cuspir
palavras, porradas e pedidos

as minas explodem pisoteadas
nos corredores da linguagem fálica
– são apenas pedaços de carne
a abastecer cozinhas, latrinas
e motéis baratos; não são mulheres.
são artefatos soterrados, risco necessário

e a cidade cospe fogo
na sua constipação diária, paranóica.
veias arregaladas,
a cidade cheira e fuma
em nóia agonizante.
usa túneis para esconder rostos
e um silêncio mecânico
– olímpico –
no êxtase das linhas de produção

a cidade não existe!
São Paulo é um
continente em disputa.
campo de batalha que
arrebentou são jorges,
são bentos, são lucas…
sé-fé-roubo.

a cidade é um discurso ao avesso:
espaços, buracos, afastamento,
a cidade é salto-à-distância

São Paulo. São Paulo?
São Paulo é não compreender.
São Paulo é nossa Grande Falha
São Paulo não é uma cidade.
São Paulo é pergunta permanente,
ameaçadora.

hipercidade

uma moça sonha a cidade
desperta uma colméia confusa
ladrilhada em desejos coloridos,
é operária em um carrocel metálico
e não entende nada

Barcelona entorpeceu seus olhos
ela rodopia, fala, enfeita-se
que é pra se esquecer engrenagem,
desentender-se

No espelho, sou sua outra
me apavoro lendo sombras.

a rua é ruína
a cidade borra
um resto de pele do seu rosto
enquanto devora gente

a rua é muralha milenar, militar
a cidade engole
planos, telas e cores
enquanto desinventa-se em igual a tudo

toda criação se inverte
objeto.
o afeto é um bibelô
o grito um pinduricalho
e as cores
são não mais
que o sorvete lambido
em roletas, filas e fotografias

os ônibus são cúbicos
o metrô é um cilindro opaco
as salas têm poros em
todos os ângulos,
mas Picasso, onde vai?
quem passa o tempo
adormecido nos ventres de Gaudi?
quem mergulha nos infinitos
traços de Miró?

Não, a menina patina
nos corredores da hipercidade
e não conhece os outros lados
do seu rosto. o gato comeu seus olhos
seus?

O que é seu nessa cidade?
o segredo que não conheço?
o quase-vazio do inverno?
sua língua, seus vizinhos, suas praças, seus tapas?
as varandas, os jornais, mini-saias, os seus pães?
construções?
suas carnes, seus cafés, suas danças ou o
sangue que escorre nas taças?
touradas? Valentia, camarões?

tanto que ocupa suas gôndolas
que a moça se move plégica.
não há canto
na erupção das moedas
ela não vê seu talvez,
é o corno no
Decamerão.
é Cândido; Benjamim.
ela não conhece
quem a governa

mas não se importa
Barcelona é imponente,
nova cidade-estado,
é auto,
é em si,
é convergência e vitrine,
e pulsa

nela, o coração de um rei vai
traduzido em coração de touro

bicho apressado pelas ruas
cada vez menos ruas
cada vez mais paredes

até…

homem-da-lua

te deram veneno
meu preto
tua garganta lúdica
fez erosão
te roubaram tempos
meu preto
tua poesia túnica
vira trapo
na boca
de quem te escarra

tua pele é prêmio
e a nação
meu preto
tua nação
é também
teu tronco
a devorar teu sangue
te deitar açoites
esfinge indecifrável
entidade inviolável
esta instituição

tentam arrancar-te
Deus, meu preto
enquanto tua boca
confessa essas igrejas
dentro de ti
– eles enlouquecem

tua palavra
meu preto
e tanta gente
desligada e repartida
só daria comoção
ódio

tantas cabeças
enserpentadas
a destilar veneno
são górgonas
meu preto, são

quem te espeta é pobre
quem te devora é pouco
tanto recalque
a eclodir pancadas
tanta gritaria
te envenena, meu preto

mas, que nada
tu sabes
tuas porções
em tuas poções
habitam tantas mulheres
tanta gente
tanta diversidade
que não há remédio
meu preto
nem há veneno não

é a vida, apenas
tuas bruxas e sereias
o teu grito e tuas luas
são as ruas, meu preto
é o que te faz viver

por 1968

aborta
do olhar
os embriões
da tua impotência

aborta
teu medo
teus padrões e
teu silêncio

aborta
tua burguesia
teu orgulho
tua servidão

dispa-te

abra os olhares
do teu ventre
ao impossível

[a escrevo em muros virtuais, pelos 40 anos da luta]

opa cidade

os prédios ameaçam Deus
enquanto flores
despencam em janelas cerradas

toda torre arde
como setembro
e a cidade, finalmente,
inten-cidade
cumpre-se
em rios metálicos açoreados
e destina-se em
crepúsculos cinza
futuriza-se em árvores plásticas
gente pálida
em turbilhonada existência

cidade-angústia, cidade-máquina, seca cidade
analcidade feita em desejo estético
corpo invadido
cisão política.

a pólis reinventa éticas
mastiga meus ouvidos quando
cospe palavrões em muros pichados
gente espalhada
em tanta periférica existência
tanta concentração: opacidade

minha cidade é susto
e ameaça
humana ratoeira a esconder
sorrisos tímidos
gente roída se debate
onde não há mais
nada

tudo é terra ocupada
tempo ocupado
em cabeças sem teto, sem terra, sem tento e ternura

a cidade são buracos
correria, grito, porrada
enxurrada e capital
invencível cidade
sob avermelhado céu
taquicárdicas tentativas
em fabricar sentidos
no todo dia

terra queimada

bocais
o sentido se foi
se foi o estado
agora pássaro calvo
e o país
partiu-se
feito pau arremessado
ao fogo
espirrando tons
áridos, ácidos – hálitos

desexistência e morte
a alimentar
toda fogueira urbana

a moça partiu calada
no também de tanto verde
que restou em
galho seco
resto de toco
terra, terra, terra
desgoverno do fogo
estalo e uivo
angustiado

sublimação

venho de lá

convido a
viver o vivo,
este transitório
estado
de quase

a mover-se entre
quandos e
sustentar
o que “está para”…

ser o que
reticencia
toda sentença

a palavra é
nada – impressão
estalo e tentativa.

para haver,
é o que já foi
foi o que já não é
sempre um-talvez

sublimação do sabido,
o instituído
fagocitado em perguntas

um é,
de si inseguro,
desapegado
dos laços
desavisado
das pedras
coisa esquecida
sem rosto
e território,
partida

quer ser
aquilo
o que
não se é

e existir
naquele que
não se pensa

ser
aquele que é.

e
o que é, já foi