O que há do outro lado da minha boca?
De onde vem a palavra?
Onde vou, quando não estou aqui?
Quem fala na minha poesia?
Onde desapareço?
Quem grita no meu silêncio?
Quem me vê do espelho?
O que nasceria dos meus abortos?
Quem é o roteirista dos sonhos?
O que é o avesso da palavra?
Faço? Sou feito? Me faço?
Autor: Rogerio Silva
não
um tempo
à beira das horas
nonada do mundo
esquecido de estrada
palavra e disposição
levar borracha do bolso
em apagar a tendência
feito a ave-maria
lusco-fusco em solidão
ser feito d’água
em diluir
tal bruta concentração
e acordar comigo
parir minha vez
na palavra que evito
esse avesso do sim
estranho raro
estrangeiro: não
canto de espera
passa o quero-quero
que tanto quer
esse pássaro,
isso crucificado
grita-sem-coisa
voa sem porto
quero-quero-quero
que tanto traduz o mundo
tudo ela aquilo tanta gente
quero-quero-quero
aveamplificador
teu bico é um balcão
fila de náufragos
teu vôo arremessa
bocas fechadas
gente-que-não
quero-quero-quero
pássaro vagão de desejo: vai
eu vi a fome tua alma
em incessante tentativa
quero-quero-quero
tu és tanto silêncio
teu nome é distância
teu nome é não posso
teu nome é não tenho
teu nome é cadê
teu nome é
ave-
quero-quero-quero
machado
andava raso, no vesgo da luz
um machado pendia nas mãos.
o silêncio ponto do pássaro
fazia um tanto calor semfim.
e o tempo ia torto, sem sopro
de um sol promovido a doutor.
entre lembranças verdes, o,
casmurro na sombra minguada.
esqueceu-se do trem, amolecou-se
anoiteceu em ver quinquas borba
ensaios sobre o ver – 8

eu sonho…
na máquina
dos olhos
aquilo que
me opera.
tempos feito
engrenagem
passagens do
dentro e fora
hora-a-hora
abandonadas:
deixo as separações
à máquina
não se engana
inteiras plenas
percepções.
chega
até onde faltam
meus pensamentos
entende
no onde
escapo calo
minha voz
máquina-do-tempo
os olhos
do sem contorno
eterna partida
e retorno
em direção
à matilha de mim
[a imagem que acompanha a poesia conheço por máquina-do-corpo e foi gentilmente cedida por André Brandão]
comentários a el grand masturbador

entardece o dia em tímidos vermelhos,
meu rosto pálido curado no tempo seco
é um fruto no tronco em infinito inverno
toca um vento amarelo os olhos,
dias e noites me emprestam espíritos
quando sou nada mais do que respiro
deserto, meu corpo é uma ampulheta
cíclica, máquina-do-tempo sem fim
máquina-de-areia em uma obra infinita
caçador que aprisionou um coração
engaiolado e pulsante, memória do
dia que vai surgir na curva das horas
o rosto é também medo da serpente
pesadelo adotado da infância tribal
sedução e vaidade que é e assombra
e a tudo devoram as águas do tempo.
não há tanto assim no largo horizonte
e minha palavra é um barco-besouro.
procuro, logo existo. Sou essa busca
soprada de escuta em escuta, olhar em olhar
entre portos que não ouso, talvez, ancorar
notas simples aos reis daí
suas cabeças levam pedras
a cidade é um velho leão
atormentado em insônia. sonha
a zebra que não pode mais
a savana é a tela calada
nos labirintos gélidos museus
e toda noite é agonia quando
a força fermenta-se em medo
um muro abriu salas falantes
onde havia antes adagas cegas
e o vapor dos grilhões sublimados
também apodreceu armaduras
refluxo e mistura pelas ruas
navegações invertidas, e a
nação em desespero ao
ser descoberta; riso ao avesso
aqui, tudo o que é de pedra
já está inventado e firme
até as idéias e rebeldias
são colossos prédios, quadros, bustos
que se leva daqui, então?
não é assim descobrir?
deixar pegadas na carne
arrancar o valor em pó?
não. não vive nas contas
o conto que nos interessa
sob as saias, vozes e pressa
o reino transborda desejos
meu reino, por não ter medo
meu reino, por haver tentativa
meu reino, para que exista reino
meu reino, para que eu tenha lugar!
assim gritam seus sussuros
enquanto Madrid sustenta
muralhas e defende seu feudo,
seus flancos e a sua vertigem
porque há cabeças
que não se querem pedras
há leões em um balé surreal, assustados
surpresos com o terno abraço das zebras
desenhos em madrid-vieja
uma linha
risca a tua rua
no papel, uma vírgula
a tua lua
reticências
para que eu seja tua…
inspiração
interjeição
interpretação
só apareço
se escreves
sou quando
tu queres
uma janela
uma saudade
uma metade inventada
um sentido
escondido, um suspiro
em tua oração
hipercidade
uma moça sonha a cidade
desperta uma colméia confusa
ladrilhada em desejos coloridos,
é operária em um carrocel metálico
e não entende nada
Barcelona entorpeceu seus olhos
ela rodopia, fala, enfeita-se
que é pra se esquecer engrenagem,
desentender-se
No espelho, sou sua outra
me apavoro lendo sombras.
a rua é ruína
a cidade borra
um resto de pele do seu rosto
enquanto devora gente
a rua é muralha milenar, militar
a cidade engole
planos, telas e cores
enquanto desinventa-se em igual a tudo
toda criação se inverte
objeto.
o afeto é um bibelô
o grito um pinduricalho
e as cores
são não mais
que o sorvete lambido
em roletas, filas e fotografias
os ônibus são cúbicos
o metrô é um cilindro opaco
as salas têm poros em
todos os ângulos,
mas Picasso, onde vai?
quem passa o tempo
adormecido nos ventres de Gaudi?
quem mergulha nos infinitos
traços de Miró?
Não, a menina patina
nos corredores da hipercidade
e não conhece os outros lados
do seu rosto. o gato comeu seus olhos
seus?
O que é seu nessa cidade?
o segredo que não conheço?
o quase-vazio do inverno?
sua língua, seus vizinhos, suas praças, seus tapas?
as varandas, os jornais, mini-saias, os seus pães?
construções?
suas carnes, seus cafés, suas danças ou o
sangue que escorre nas taças?
touradas? Valentia, camarões?
tanto que ocupa suas gôndolas
que a moça se move plégica.
não há canto
na erupção das moedas
ela não vê seu talvez,
é o corno no
Decamerão.
é Cândido; Benjamim.
ela não conhece
quem a governa
mas não se importa
Barcelona é imponente,
nova cidade-estado,
é auto,
é em si,
é convergência e vitrine,
e pulsa
nela, o coração de um rei vai
traduzido em coração de touro
bicho apressado pelas ruas
cada vez menos ruas
cada vez mais paredes
até…
mariscal

Pelas praias de Valencia, tantas conchas. Penso ter me lembrado Neruda, seu oceano de palavras. Em dias em que falar é permanente invenção…
minhas palavras
são minhas conchas
sou carne assustada
na casca das minhas frases
meu grito é esqueleto
e toda argumentação
minhas cápsulas
escrevo as linhas
curvas do meu corpo
torto o meu útero
onde capturo oceanos
minha boca cospe
ossos no caes
onde âncoras faminta
minha língua calcifica
petrifica as sílabas-górgonas
que se enlaçam em tuas redes
meu grito é então pérola
antígeno a preparar
primavera nas tuas mãos
minha prosa me esconde
tu me invertes
me fecho
enquanto o vapor cáustico do
teu desejo me descola
faço um segredo, me calo
tu és o estupro consentido
os dedos que me estragam de assalto
eu faço voto, estaciono, me asseguro, escondo
tu és o pote fervente, o óleo escuro
que me dissolve
eu me encaixo, adormeço na trama
de corais serpentes minhas certezas
tu me distrais, em tapas corta
minhas linhas me faz presa flácida
eu falo, tu me alucinas
eu falo, tu me exterminas
eu falo:
casco férrico
pele pétrea
alma plúmbica
produzo palavra sólida
enquanto oras um caldeirão
em que me esqueço máquina
e lápide
mergulho em ti pra me lembrar
conversa, bossa, plá…
mergulho e flutuo pra me lembrar
que sou antes qualquer palavra
tudo, barata, ave, nada
gente, oco, água, pouco
sou alfabeto
plano e buraco, sou quase.
sei o gosto de ser
qualquer palavra
e sou também ensaio
letras nas mãos de um menino
sou armação, quebra-cabeça, carta-de-amor
rabisco e palavrão,
sou pixação, exo-vontade
sou palavra
que me fala, em
qualquer possibilidade
