fino

um fio de frase
corre fino, fininho
no canto de cada boca

ali se desenrola a
história que cada um
quer dizer de si

porque todo passarão
só voa mesmo quando
fala em roda que
foi capaz de pular.

fazer-se é mesmo
sina difícil, encapelada:
a gente só desenrola
quando ameaça contar

e é aí, no dito, que vão
os brincos das coisas.
um pingo de palavra
sempre embeleza um oco

que mais que o beijo,
o que faz valer a boca
é sua fome em narra

seriguelas

seri
as seriguelas cheiravam quintal,
da árvore magra no
fundo da casa onde a
gente colhia jóias e
cuspia esquecimentos

o torto era só virar caroço,
desrepresar no mato
o resto de tudo que
se mastigava coisa-séria

ali a meninada juntava tardes
e rasgava juízos diante
de qualquer precisão de caçada,
corrida, bola ou jogo-de-esconde

[mas ali fazia também um querer
de outros projetos, mais terra]

e um fio de futuro
sempre pendia da
janela aberta
– já no finalzinho,
por onde um grito impreciso,
mais bobo do que bravo,
vinha sequestrar o sem-teto
de cada dia.

de tudo, o espírito
da cidade, foi o que
mais herdou

pequenas palavras de amor

porque
uma barriga
pode piscinar
um mar

só na razão que
uma moça
pode artesanar
o tempo

e carregar todo
o será da gente
no escuro do
seu umbigo

(…)

mas quando?
isto tudo
vinha ali,
em tempo-a-tempo,
as mensagens

(…)

todo aviso, pois
é a gente mesmo
marcado em
mandanças

este imperativo
de todo querer
pétreo que
ribanceia
dentro da gente
sempre a
exigir das mãos
o impossível

e é só.
é tudo.

rosa

roseni
não esqueci Rosa
rabisco aguçado
do raso querer
e do tanto saber
deste ó-em-pó, povo

nem desfisguei-a
ou a desli, no fundo
de meus raros juízos

não esqueci Rosa
palavra-de-costura
em todo vão e rasgo
onde se aninha a
política deste uai
jeitão-de-gente

nem o apaguei,
ou encabrunhei meu
gosto em filosofá-lo

não esqueci Rosa
passarão-de-grito
carta de esgarçar
segredos que a gente
só escondeu de si

nem acomodei-a
ou dependurei seu gosto
feito réstia do que já passei

não esqueci Rosa
dona de rasgar picadas
por onde todo macho
já havia deitado um fracasso
em cachaça de esquecimento

nem eu o encerrei, ou
prateleirei o guizo do
bicho que os nós acorda

não esqueci Rosa
esse corpo de dizer anzóis
e enganchar todo furto
da prontidão que o peão
merece pra não arriar

nem eu a perdi, ou
a verti num último gole
da água que chorei acabar

nem não deixei poeiras
enganarem os tempos
no que destilamos ordens

nem me fiz inquieto
nem me mordi de incômodos
nem me passei de Minas

não apaguei
não desmedi
não desliguei
nem devolvi
os fardos lautos
de sabidos destinos

não, nem nada, nonada,
eu ancorei aqui.
nem Guimarães partiu
nem me esqueci Roseni

muerte

se cambió la muerte,
de un vaso roto
a un tipo oscuro de piel

que la use, así, como nada
en cada noche muda
desde que tomaste
el barco de luces
que te partió de mi.

se cambió la muerte,
en un ocaso de mi cuerpo opaco
memoria olvidada de su risa
en un corazón sin sonido y ritmo

que no tuve entonces como
una mano a remar mi sangre
pero si un camión-mezclador
a tornarme hierra
sombra de existencia.

poes sí, se cambió la muerte.
De un lejano destino de los hombres
en mí compañera de desayuno
– vacíos ojos rojos,
a preguntarme porque vivía

segunda-feira

eu vivi numa
segunda-feira
quando o vampiro
do tempo
permiti atravessar
de um cheiro de
coisa esquecida

aí desfiz as
trouchas de pedras
que pesavam meu peito,
e irmanei o vôo arisco
e sem-lá dos bem-te-vis

eu vivi em tempo
naquele dia qualquer
quando fiz
saber que meus versos
são inquilinos de mim

aí eu desenhei
espaços e colori em
verde, vermelho e será
os destinos que n’outro
dia ainda escarrava o
senhorio que não conhecia

eu vivi num
sopro breve
daquela firme estação
de um ano que
escolheu por não
mais ter fim

aí eu desfiz as
malas dos fios já
grisalhos da barba
que teima me
acompanhar no ermo
renovado do meu corpo

e vivi num som
acelerado de outra
vida que se fez chegar

no arco de uma dor
que não fez mais curva
a culminar encontros

e nas caixas que esvaziei

tudo porque era
segunda-feira no quadro
azul da minha janela,
e porque nela,
eu resolvi morar